Eliana Rolemberg, ex-CPT, recebe título de Cidadã Baiana na Assembleia Legislativa

“Uma oportunidade de falar de democracia e direitos humanos” assim declarou a paulista Eliana Bellini Rolemberg sobre a cerimônia que a tornava legalmente uma Cidadã Baiana. O título foi entregue um uma sessão especial pelas mãos da deputada estadual Neusa Cadore, na Assembleia Legislativa, na última quinta-feira (16), em Salvador.

A cerimônia contou com a presença de diversas entidades por onde Eliana passou em mais de 30 anos dedicados ao trabalho social e político. A Comissão Pastoral da Terra, onde trabalhou entre os anos de 1979 e 1983, foi representada por Ruben Siqueira, coordenador da CPT Nacional.

Em seu discurso, Ruben relatou a história de luta de Eliana na instituição e suas contribuições na luta em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras assalariados rurais na Bahia, e destacou: “Esta intensa trajetória, de pouco mais de quatro anos na CPT, precisou ser aqui recordada para, mais do que enaltecer Eliana, lançar luz sobre um tempo e uma geração de luta como poucos, do povo do campo e dos e das que a ele se juntaram, como apoio e assessoria, em autêntica solidariedade de classe” (ao final o discurso completo).

Foto: CPT Regional Bahia (16/03/2017)
Foto: CPT Regional Bahia (16/03/2017)

Em meio a homenagens e demonstração de carinho dos familiares e amigos que lá estavam, Eliana não deixou seu lado revolucionário adormecido, em meio ao plenário, chamou a atenção de todos pela continuação da luta pelos direitos dos cidadãos baianos e brasileiros.

“Desde que cheguei no Nordeste e depois na Bahia, eu tenho trabalhado junto com os movimentos sociais, e adotei este estado como minha terra já há muitos anos. Então eu me sinto muito feliz em ser considerada cidadã baiana. Também porque eu acho que as lutas aqui da Bahia, o povo e a cultura são muito interessantes e envolventes. A Bahia tem se destacado na construção democrática, na defesa dos direitos humanos, sem aquele cansaço que a gente sente em alguns lugares. Eu acho que aqui na Bahia a gente tem muita chance de tentar resistir e não deixar que tantos direitos que foram conquistados com muito esforço, sejam perdidos”, reforçou Eliana.

Para a deputada Neusa Cadore, a escolha do mês de março para o evento não foi aleatória. Foi uma oportunidade de apresentar a história de luta de uma mulher e dar visibilidade a participação e contribuição das mulheres para mudanças significativas no Brasil.

“Essa é uma época de profunda crise e poder viver através da memória da Eliana, permite que as pessoas se reabasteçam e se fortaleçam para continuar lutando. Ela representa muito o espírito revolucionário das mulheres, e poder gritar ‘Fora Temer’, aqui nesse espaço que é muito importante e simbólico, é reforçar que continuamos na luta. E como disse Eliana ‘eu agora como cidadã baiana vou continuar com vocês nessa luta’”, declarou a deputada.

 

Segue abaixo a fala de Rubem Siqueira:

Foto: CPT Regional Bahia (16/03/2017)
Ruben Siqueira. Foto: CPT Regional Bahia (16/03/2017)

“Eliana Bellini Rolemberg, nossa cidadã baiana e do mundo.

(Fala de Ruben Siqueira representando a CPT na sessão de outorga do título de “Cidadã Baiana”, na Assembleia Legislativa, em Salvador, no dia 16 de março de 2017.)

Para não extrapolar muito o tempo regulamentar, permitam-me ler o que preparei para esta manhã importante, ao que dei o título de “Eliana Bellini Rolemberg, nossa cidadã baiana e do mundo”.

Aqui represento a CPT – Comissão Pastoral da Terra, criada e mantida, há quase 42 anos, pela Igreja Católica e outras Igrejas para “apoiar, dinamizar e assessorar” os trabalhadores e trabalhadoras do campo e os agentes de pastoral que se solidarizam com suas lutas. Eliana integrou a CPT Nordeste III (Bahia/Sergipe), como assessora regional entre 1979 e 1983.

Ela hesitou muito em aceitar esta homenagem do título de Cidadã Baiana… E nós hesitamos com ela! Aceitou porque viu nesta uma oportunidade para visibilizar as lutas e os sujeitos populares destas lutas aos quais tem dedicado sua vida. Com ela e por isso, aceitamos fazer parte e contribuir para a significação deste ato.

Para além dos ritos e formalidades desta homenagem, importa ressaltar o que esta pessoa de luta e as lutas desta pessoa têm a dizer neste espaço de política institucional, nesta grave quadra que vivemos, a nos exigir reinstitucionalizar a política e substancializar a democracia. Porque em espaços como este, da democracia formal, quando e muito distanciados do real e duro cotidiano do povo sem poder e direitos, a política perde cada vez mais o sentido. Os golpes em curso o comprovam. E Eliana é mais de outra política, a direta, e outra democracia, a real e plena dos direitos.

Trazer, pois, para cá a pessoa e a trajetória de Eliana menos enobrece esta casa do que à própria pessoa e trajetória e significações de lutas homenageadas! Creio que a intenção da companheira deputada Neusa Cadore – porque de trajetória correlata à da homenageada, tendo sido também da CPT – é reafirmar o sentido de sua e nossa presença aqui e o próprio sentido desta casa. Valeu, Neusa!

Eliana Rolemberg, chega do exílio com a anistia em 1979. O querido e saudoso mestre a quem tanto devemos, Padre Claudio Perani, jesuíta, um dos principais criadores do CEAS e da CPT – sempre disposto a dar guarida e salvação a militantes perseguidos pela repressão, como fez com tantos e tantas –, conhecedor do potencial de Eliana, a trouxe para a CPT Bahia/Sergipe.

Na CPT, num trabalho pioneiro, inspirado pelo próprio Claudio Perani, Eliana dedicou-se a apoiar as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras assalariados rurais. Marco desta luta foi a famosa Greve do Café, assessorada por ela e Antonio Dias, do CEAS. Entre 13 de abril e 21 de maio de 1980, cerca de 10 mil assalariados e assalariadas do café fizeram histórica greve, em Vitória da Conquista e Barra do Choça. Em época em que o direito de greve era ainda mais restrito, foi a primeira greve no Brasil a cumprir todos os trâmites legais antes de ser deflagrada. Das 30 cláusulas da proposta de acordo, os patrões rejeitaram 14, entre as quais as mais elementares, como as relativas ao processo e equipamento de trabalho, medição da produção, insalubridade, hora-extra,  condições de transporte e alojamento,  equiparação salarial da mulher e do menor de idade, o preço da diária dos catadores e catadoras de café… Ainda que a maior parte das reivindicações não tenha sido satisfeita, o saldo político-organizativo do movimento foi muito importante: a conscientização e adesão da categoria, o fortalecimento do sindicato como ferramenta de luta, a organização debaixo pra cima, as novas lideranças surgidas… Esta greve foi uma escola para a classe trabalhadora na Bahia, de impacto positivo muito além da microrregião do Planalto da Conquista e do estado!

Na CPT, Eliana era responsável pelos estagiários e estagiárias. A CPT teve a feliz ideia de atrair e possibilitar períodos de estágio a estudantes universitários. É incontável o número destes estagiários de Direito, Ciências Sociais, Serviço Social, Comunicação etc., que tiveram oportunidade de contribuir com a formação, a organização e a luta dos camponeses e camponesas e por eles e elas serem formados e tornarem-se deles parceiros e parceiras solidários. Significou um diferencial da CPT Bahia / Sergipe, que até hoje repercute positivamente. Tantos e tantas advogados, promotoras, juízes, professores, assessoras… hoje atuantes por aí, nos mais diferentes espaços, carregam a marca daquela experiência. Como já ouvi de vários: “A gente sai da CPT, mas a CPT não sai da gente”. Aí, sem dúvida, as marcas de Eliana. Eu mesmo, que cheguei na CPT em 1981, na Juazeiro de D. José de Rodrigues de Souza – ele próprio carioca tornado Cidadão Baiano de coração, atitude e título (2003) – sou testemunha da atenção e do carinho com que Eliana lidava com a rapaziada do estágio, e com todos e todas do povo do campo e das entidades parceiras que circulavam nos espaços da CPT.

Eliana esmerou-se na defesa dos direitos dos posseiros e posseiras contra a grilagem de terra, violenta e intensa naqueles anos, como volta a ser hoje. Estão aqui hoje, no Centro Administrativo da Bahia, para dizê-lo e clamar por justiça, 18 camponeses de fechos de pasto de Serra Dourada e Correntina, no Oeste Baiano. Dois marcos daquela quadra: as repercussões do assassinato de Eugênio Lira, poeta, advogado dos posseiros em Santa Maria da Vitória, em 1977, o que levou à criação da AATR – Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais na Bahia em 1982; e a CPI da Grilagem de Terra, nesta Assembleia, entre 1979 e 1981, que exigiu grande esforço de Eliana e de toda a CPT em levantar os casos e subsidiar os depoimentos.

Eliana dedicou-se na defesa dos direitos dos ribeirinhos e ribeirinhas atingidos pelas barragens de Sobradinho e Itaparica, no final dos anos 1970 e início dos 1980. “Terra por Terra na Margem do Lago” era a bandeira do histórico movimento.

Todas as lutas rurais deste período tiveram importante expressão e consolidação nos históricos Congressos da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), época do auge do movimento sindical rural.  Eliana acompanhou camponeses e camponesas da Bahia na participação nestes congressos e ajudou-os a defender os direitos dos sem-terra à Reforma Agrária e dos quilombolas ao reconhecimento de seus territórios. Cumpriu também tarefa na difícil aproximação entre a “velha” CONTAG e a “nova” CUT (Central Única dos Trabalhadores) criada em 1983.

Por fim Eliana, também como luterana, muito contribuiu para o ecumenismo, na CPT e depois integrando a CESE.

Esta intensa trajetória, de pouco mais de quatro anos na CPT, precisou ser aqui recordada para, mais do que enaltecer Eliana, lançar luz sobre um tempo e uma geração de luta como poucos, do povo do campo e dos e das que a ele se juntaram, como apoio e assessoria, em autêntica solidariedade de classe. Algo mais difícil hoje, quando mesmo na urgente e ainda tímida volta às ruas, falam mais alto os corporativismos e os projetos setoriais, de partidos, grupos e pessoas…

É, pois, justo e oportuno colocar Eliana Rollemberg em posição saliente nesta manhã, para olhar não para ela, mas através dela e de seus atos de toda uma vida, e enxergar os invisíveis (assalariados rurais, posseiros, quilombolas, atingidos por barragem e outros), invisibilizados por esta democracia de fachada. Falsa porque não incorpora efetivamente a maioria, os pobres do campo e da cidade, os que trabalham e nos sustentam e são cidadãos e cidadãs sujeitos de direitos iguais, não só “perante a lei”, mas no cotidiano árduo na luta pela vida e vida digna. Que só se tornam visíveis quando aprendem a lutar, com quem como Eliana se dispõe a ajudar, e lutam juntos! Como se impõe, na hora presente, sob tantos golpes e golpistas e tantos maiores retrocessos e perdas de direitos para os que trabalham e nos sustentam. Valeu Eliana!

Agora, cá entre nós, Eliana, com todo respeito, acho que além disto, ultrapassados muros e fronteiras reais e inventadas, este título em si não lhe acrescenta mais do que você já era e sempre se fez: Cidadã do Mundo!

 

Ruben Siqueira / CPT

Salvador, 16 de março de 2017″.

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