Histórico

Na metade dos anos 70, em plena ditadura militar, já estavam em andamento, no Brasil, iniciativas e articulações que vinham apresentando as feições de um modelo de igreja e de presença das comunidades cristãs na realidade social, fortemente marcada pelas perspectivas abertas, em campo católico, pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, concluído em 1965, e pela Conferencia Latino-americana de Medellín celebrada em 1968. Foi este o caldo que fez nascer a CPT Bahia. A oportunidade oficial se deu durante os trabalhos da XII Assembléia Geral Regional da CNBB Nordeste III, em Salvador-BA, de 12 a 15 de janeiro de 1976.

O nome “comissão”, confirmado ao longo das décadas, não é casual. Aponta para um grupo ágil, restrito e permanente, de pessoas – leigos/as, padres, religiosas/os, bispos – que não substituem nem tutelam o caminho autônomo dos grupos populares e movimentos sociais. A CPT, de fato se liga a uma pastoral de conjunto – “é co- missionada” – para se inserir no meio dos pobres da terra e prestar um serviço solidário. O campo deste serviço apresenta, de forma aguda, situações de injustiça e violência históricas, definidas teologicamente, como situações estruturais de pecado. Dentro de uma trajetória de mais de 30 anos, a CPT Bahia reconhece e aponta algumas etapas e momentos que, didaticamente podem ajudar a entender melhor sua já significativa parábola histórica.

Os inícios da CPT Bahia – anos 70

As primeiras pessoas que assumiram esta co-missão, em sua instância regional (Bahia e Sergipe) eram pessoas com sensibilidade pastoral, termo este derivado do ícone evangélico do “bom pastor”, inseridas e conhecedoras de vastas regiões de Bahia e Sergipe. Estas pessoas tinham olhos abertos e sensibilidade para não ficar indiferentes diante do que presenciavam em seu contato direto com as comunidades camponesas. Cotidianamente, estouravam conflitos com expulsões de famílias, ameaças e mortes de posseiros, queimas de casas e de pertences, invasões por parte do gado dos fazendeiros, em roças de subsistência, “grilagens” de terras  etc.

Ao lado destes agentes pastorais, se agrupavam também, em plena ditadura militar, muitos setores da sociedade civil que não podiam se apresentar com organização autônoma: profissionais do direito, sociólogos, assistentes sociais etc. Entre os nomes deste período, lembramos até com certo tributo de reconhecimento, algumas personalidades eclesiais que se tornaram eminentes pela opção de se inserir nas situações dos empobrecidos: Dom José Brandão de Castro, bispo de Própria – SE, Dom Jairo Ruy Matos da Silva, bispo de Senhor do Bonfim – BA , dom José Rodrigues, bispo de Juazeiro – BA, Dom Matthias Schmidt, bispo de Ruy Barbosa-BA, Dom Grossi, bispo de Bom Jesus da Lapa-BA,  Pe. Claudio Perani SJ, coordenador do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), de Salvador – BA, Pe. Érico Praeter da Diocese de Alagoinhas – BA, Antonio Albertino Carneiro da Diocese de Feira de Santana, Frei Enoque Salvador da Diocese de Própria – SE, Pe. Eugênio Morlini da Diocese de Ruy Barbosa – BA, etc.

Tempos de consolidação e de enfrentamento – anos 80

Os anos 80, na opinião de muitos da CPT, foram os anos  esperançosos e fecundos. Estava nascendo, no meio rural e urbano, uma nova consciência tanto na esfera da vivência de uma fé religiosa como no campo da dimensão política e da organização popular. Foi o momento em que iniciou o ascenso de movimentos sociais combativos e autônomos. A ditadura militar vinha desmoronando e, mesmo à custa de trágicos conflitos e chacinas que ceifavam vidas de trabalhadores, sobretudo lideranças, havia a certeza de que estava chegando um tempo novo de liberdade e de reconhecimento dos direitos fundamentais para camponeses e operários urbanos.  Nesta década a CPT Bahia e Sergipe consolidou-se em 12 dioceses com um Secretariado Regional e se dedicava a várias frentes de trabalho ditadas, conforme o “pipocar dos conflitos” segundo a expressão popular desses tempos. A urgência da reforma agrária e agrícola e a organização das classes populares, entraram a fazer parte do cotidiano das preocupações da CPT.

Tempos da investida do neo-liberalismo – anos 90

A década de 90 apresentou também  na Bahia a entrada da grande onda neo-liberal. A Bahia apresentava “ilhas de felicidade” com grandes investimentos e deixava as grandes maiorias da regiões rurais na “via da amargura”: conflitos, luta para conquistar um pedaço de terra e poder sobreviver nele. “Luta pela terra e luta na terra” era o slogan de então; aumentava a problemática e a mobilidade dos assalariados e dos migrantes … emergia a problemática do semi-árido e do acesso à água de qualidade para o consumo humano ainda considerada um privilégio de poucos, destaca-se mais e mais a  mobilidade dos assalariados e migrantes. A CPT colabora para o nascimento e consolidação dos movimentos sociais. Além do MST, começam a atuar o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a Movimento dos Trabalhadores Acampados e Assentados da Bahia (CETA) e o Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB). É a década das muitas ocupações de terra em meio outros tantos despejos. A CPT neste campo representou algo novo: colaborou a desconstruir também ideologicamente o tabu e o abuso de uma propriedade privada concentrada e ilegal, fruto de apropriação indevida por meio da grilagem.

Nesta década também se assiste a uma progressiva diminuição de entusiasmo e de engajamento, por parte de alguns setores eclesiais, sobretudo hierárquicos, em relação à presença e compromisso da CPT. Dentro deste quadro, acrescido de outras complicações, deve-se lembrar também a suspensão da presença e atividade da CPT de Própria, Sergipe. Esta CPT foi uma das pioneiras com seu bispo, profeta e missionário Dom José Brandão de Castro.

Na primeira década do novo milênio

A CPT Bahia, através de estudo da realidade, encontros e avaliações, está fazendo o possível para ser uma resposta adequada e eficaz aos novos desafios. Entre eles destacamos o protagonismo das comunidades tradicionais (Indígenas, Quilombolas, Fundo de pasto, etc.). A CPT acredita, ainda hoje, que sua presença e apoio, apesar de todas as mudanças e apesar de alguns pareceres pressurosos, são ainda necessários e úteis na construção de um novo modelo de civilização.

Com a emergência da problemática do rio São Francisco e com a entrada maciça de grandes empreendimentos e monoculturas ligadas ao agro-hidro-negócio, a CPT Bahia está superando os limites diocesanos como critério de atuação e tenta priorizar uma “solidariedade de serviços” que, para serem mais eficazes, devem ser estratégicos. O trabalho da CPT, de fato, sempre cuidou para se manter aberto a um horizonte ecumênico e inter-religioso universais.

A mola propulsora de ontem e de hoje continua vindo de uma fé vivida numa espiritualidade que encontra na Bíblia e no evento Jesus Cristo, suas raízes mais profundas.