Agroecologia

As agricultura no Brasil vem passando por vários ciclos desde o “descobrimento”, mas todos eles têm como base predominante o latifúndio e a monocultura para exportação. É no século XX, após a 2ª Guerra Mundial, que acontece a chamada Revolução Verde, muito conhecida também como “modernização conservadora”: Mandala - um técnica de produção agroecológica. (Foto: Arquivos CPT Conquista)moderna porque utiliza insumos e máquinas de origem petroquímica e conservadora já que conserva a terra concentrada nas mãos de grandes proprietários. Outras conseqüências deste modelo são: erosão cultural, êxodo rural, desnacionalização da terra e da produção, desestímulo ao mercado interno, dependência e dívidas no sistema bancário, alta especialização e grande escala, aumento do custo de produção, de pragas e de doenças, dependência do mercado fornecedor de insumos (adubos, sementes, máquinas, etc.).

Os “avanços” tecnológicos colocam em risco a sobrevivência da nossa e das futuras gerações. A cada dia as águas, o ar e a terra estão mais poluídos e contaminados. O solo em processo de erosão e os alimentos na maioria das vezes envenenados, se tornando meras mercadorias para a ganância do lucro, o que, num aparente paradoxo, aumenta a fome e a sede em todo o mundo.

A CPT Bahia vem trabalhando na construção de propostas alternativas a este modelo de desenvolvimento e de agricultura economicista, tendo como base a Agroecologia, que é uma ciência multidisciplinar na abordagem do ser humano e da natureza de forma integral e integrada, aplicando os conceitos e princípios da Ecologia, Agronomia, Sociologia, Antropologia, Economia entre outras. Aqui a natureza não é uma doadora de recursos que não podemos utilizar de forma indiscriminada; o solo, a água e tudo mais em sua volta devem ser manejados levando em consideração os limites da natureza e as características culturais dos agricultores.

O que se busca é a construção de estilos de vida e de agricultura capazes de preservar a base dos recursos naturais necessários para que as atuais e futuras gerações possam-se reproduzir social e economicamente ao mesmo tempo, produzindo alimentos sadios e de melhor qualidade, e que o valor esteja no ser humano e no meio ambiente.

Agricultura apropriada aos biomas
A CPT Bahia presta um trabalho em todos os três biomas do estado da Bahia – Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica, o que condiciona substancialmente a agricultura camponesa, a única que pode ser sustentável de fato, justamente por conta desta apropriação às condições ecológicas (naturais e culturais).

A maior parte das equipes de base da CPT atua na região semi-árida, no bioma Caatinga, onde se junta ao grande movimento social pela convivência e preservação. A Caatinga é um bioma unicamente brasileiro e ainda muito desconhecido, inclusive já prestou a tantos mal-entendidos ao longo da história (indústria da seca), políticas equivocadas, opressões e misérias. Deste movimento participam comunidades caatingueiras, sindicatos, associações, pastorais e ONGs, que já lograram programas de políticas públicas de grande impacto social, como o P1MC (Programa Um Milhão de Cisternas) e o P1+2 (Programa Uma Terra e Duas Águas), que buscam dotar as famílias do sertão de terra e água suficientes para a vida digna, sem precisar migrar. Horta de lona para uso racional da água. (Foto: Arquivos CPT Caetité)Percebe-se um grande salto de consciência entre as pessoas e comunidades, ao redor de técnicas de captação, incorporação, aplicação e apropriação de tecnologias adequadas ao uso e manejo dos recursos naturais disponíveis no sertão, entre os quais: criação racional de caprinos e ovinos, manejo da Caatinga, compostagem, biofertilizantes, mandalas, defensivos ecológicos para plantas e animais, captação de água da chuva para o consumo humano e a produção, etc. Ainda que pouco apoiada pelos governos e pela sociedade, esse talvez seja dos principais movimentos agroecológicos do país e desenvolve processos culturais-político-educativos e tecnológicos da mais alta relevância, que começam a ser notado e estudado pela academia.

No Cerrado como tal a atuação da CPT é mais recente, dá-se em resposta ao recrudescimento dos conflitos resultantes do avanço das empresas do agronegócio, das barragens e da mineração. Os(as) camponeses(as) atingidos(as) dão se conta de que ao rechaçar estes grandes projetos de forasteiros, não basta ser contra, é preciso afirmar um modo de produzir e viver que seja alternativo. O Cerrado, bioma mais antigo, floresta de cabeça para baixo, caixa d’água do Brasil, se presta a um estilo de vida que combina, agroecologicamente, extrativismo e agropecuária manejada, que leve em consideração a interdependência e a fragilidade das relações entre as diversas formas de vida, não só a humana – princípio básico da agroecologia. Fronteira agrícola recente, o Cerrado vive um processo acelerado de degradação, restando apenas 40% da mata original.

Na Mata Atlântica, a CPT presta um antigo trabalho de apoio às lutas de resistência e conquista de terra. A região que por conta da crise recente da monocultura do cacau, tornou-se um grande suporte para o avanço da reforma agrária. O desafio passa ser também favorecer nos assentamentos e quilombos uma forma de produzir apropriada à diversidade e exuberância do bioma. A expansão da monocultura do eucalipto a partir do Extremo Sul, da cana de açúcar para etanol e de obras de infra-estrutura como o porto e o mineroduto tem levado a CPT a fortalecer o trabalho agroecológico nas comunidades camponesas da região, como forma de enfrentamento deste novo ciclo de devastação da Mata Atlântica, da qual restam apenas 8% da original.