“Mulheres e Soberania Alimentar” é tema de formação em Camacã (BA)

Por entender a importância de processos de formação continuada, foi realizada nos dias 03 e 04 de fevereiro, na Ocupação Guanabara Terra Sagrada, em Camacã (BA), a terceira etapa da formação de mulheres fruto da parceria entre o Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas – CETA e a Comissão Pastoral da Terra – CPT, com a presença de representantes indígenas, quilombolas e sem terra de nove organizações da região.

Nesta etapa foi trabalhada a temática “Mulheres e Soberania Alimentar” na tentativa de avançar na construção de alternativas ao modelo agrícola e alimentar atual, entendendo o quanto incorporar a perspectivas de gênero deve fazer parte de suas implicações. As mulheres representam hoje apenas 1% das beneficiárias de empréstimos agrícolas a níveis mundiais, tem menor acesso a títulos de heranças sobre a terra e ainda enfrentam outras inúmeras barreiras culturais, sociais e institucionais cimentadas em uma cultura profundamente patriarcal. Dentro da divisão sexual do trabalho elas também são as protagonistas de esferas que se movem pela lógica da sustentabilidade da vida, onde se retira a importância daquilo que se move pela lógica de acumulação de capital que localiza seu trabalho no âmbito da “ajuda”, como se o mesmo fosse complementar ao do homem, fazendo com que as mulheres cheguem a ter 16hs de carga horária diária não remunerada.

Neste contexto, a Soberania Alimentar é entendida enquanto estratégia para valorizar o que as mulheres têm, retomar saberes populares, quebrar padrões e produzir mudança. Mulheres são historicamente as guardiãs da defesa dos bens comuns e mantenedoras da alimentação saudável na mesa de todos, sendo, portanto, as principais responsáveis pela manutenção das sementes crioulas, da coleta de frutos, da proteção de nascentes e da produção de comida. Sendo assim, são as protagonistas da Soberania Alimentar ao buscar alternativas de produção e consumo de alimentos que pensem no acesso e controle da terra, acesso a créditos e recursos naturais de maneira a construir interdependência e reciprocidade. Valorizar essa perspectiva alimentar é fortalecer a participação de mulheres nos diversos âmbitos de organização da vida e colocá-las em posições centrais é essencial para processos que propiciem um lugar digno para as mulheres, bem como favoreça formas democráticas de produção, distribuição e consumo de alimentos.

Para isso, foram discutidos os sentidos políticos da relação com a alimentação a partir de relatos de experiência e de atividades em grupo como troca de receitas de pratos com Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANCs, como a biomassa de banana verde, o caruru de língua-de-vaca e o cozido de jaca verde; e de remédios naturais, como o banho de casca do caju com ervas e os diversos chás medicinais. A partir da apresentação da proposta de retomada do uso das PANCs também foram discutidos os efeitos da padronização da alimentação, do consumo dos ultraprocessados e dos sentidos da distribuição e falta de acesso à comida em diversas regiões, devido a forma de organização da produção capitalista que posiciona o alimento enquanto mercadoria.

As participantes garantiram que o café da manhã, o almoço e o lanche também servissem como ferramenta pedagógica ao resgatar a salada de mamão verde, o refogado de couve, o cozido de aipim e milho verde, a banana da terra, o cuscuz e diversos sucos naturais em um cardápio preparado pelos homens da ocupação, a fim de garantir a participação de todas as mulheres exclusivamente no espaço de formação.

Os dois dias também significaram um momento muito importante de troca e reconhecimento do esforço coletivo das mulheres em se organizar politicamente para enfrentar os desafios exigidos pela atual conjuntura de perda de direitos que atinge diretamente as mulheres camponesas, de troca de propostas de luta e esperança para os dias vindouros, com muita música para reanimar suas vontades e uma bela ornamentação do espaço construído para receber a atividade, e outros momentos de reflexão e aprendizado que apontam para um conhecimento que se transforme em prática de luta e resistência.

Camila Mudrek

 

Alimentação

No Dia Mundial da Alimentação
Um tema importante está em discussão:
a alimentação saudável
e processo de produção.
Nesse tema,
a mulher tem histórica contribuição.
Embora invisibilizada
pela cultura patriarcal de submissão,
expressa na nossa mesa
toda a grandeza de sua produção.
Tem muita grandeza a produção
da indígena, quilombola, pescadora, extrativista,
quebradeira de côco e camponesa.
A cultura anteriormente citada,
no capitalismo arraigada,
diz que é miudeza
essa valorosa produção.
Miudeza não é, não!
É diversidade de alimentação,
cultivada com carinho,
conhecimento e dedicação
e transmitida de geração em geração.
E para falar de alimentação
é preciso pensar em todo o processo,
desde a sua produção.
Como é plantada a semente?
Como se cultiva o grão?
São muitos os pontos
levados em consideração.
Modo ou modelo?
Eis o X da questão!
Trago nesse momento
a nossa proposição.
Agroecologia é modo de vida,
modo de produção,
agroecologia alimenta o corpo,
a mente
e também o coração.
Na agroecologia
há mudança de hábitos
e também de relação,
onde se respeita o ser humano
desde a criança ao ancião.
Essa é a proposta
que ganha vida em nossa mão.
Onde se pratica agroecologia,
construímos autonomia,
produzimos alimentos saudáveis,
fortalecemos a soberania,
e da Natureza fazemos preservação!

Sandra Marli da Rocha Rodrigues, paranaense de Bom Jesus do Sul, é conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), onde representa o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC).

 

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