CPT BAHIA

Fé, luta e água para a vida marcam a 48ª Romaria da Terra e das Águas em Bom Jesus da Lapa

Diosvaldo Filho – Comunicação CPT Bahia

Milhares de romeiros e romeiras ocuparam a Esplanada do Santuário do Bom Jesus da Lapa e diversos espaços da cidade, entre os dias 4 e 6 de julho, para celebrar a 48ª Romaria da Terra e das Águas, um dos maiores encontros de fé, espiritualidade e resistência do país. Inspirados pelo tema “Cultivar e Guardar a Criação construindo caminhos do Bem Viver” e lema “Que todos tenham vida em abundância” (João 10, 10), cerca de cinco mil pessoas vindas de várias dioceses se reuniram para reafirmar a esperança, denunciar injustiças e lançar preces e compromissos com a preservação da vida, da terra e das águas.

O evento uniu espiritualidade popular e denúncias contra os avanços da destruição da nossa Casa Comum. A romaria foi marcada por cantos, celebrações, caminhadas simbólicas e atos públicos, além da divulgação da Carta da 48ª Romaria, documento político e pastoral que clama por justiça ambiental e direitos dos povos do campo, das águas e das florestas.

Na missa de abertura, Dom Rubival C. Britto, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMCap) e Bispo da Diocese de Bom Jesus da Lapa, nos lembra que somos chamados a cuidar da Criação, nossa Casa Comum. Fazendo memória da publicação da Laudato si’, e inspirando-se nos temas que atravessam a Campanha da Fraternidade de 2025 sobre Ecologia Integral, diz que se faz importante e necessário que cada romeiro e romeira renove seu compromisso com o Bem Viver. “Ser uma voz profética, uma profecia diante dos projetos de destruição e morte que atinge a todos nós, especialmente os povos originários desta terra, as comunidades tradicionais, os camponeses, ribeirinhos, quilombolas, assentados, pescadores e todos os impactados pelas consequências desastrosas e avassaladoras da degradação ambiental”, relatou durante a homilia. 

Plenarinhos

Na manhã do sábado, 05, os romeiros e as romeiras se dividiram entre 5 Plenarinhos para discutir temas e fortalecer laços e lutas através de intercâmbios das suas realidades.

O Plenarinho Terra e Território: Povos da terra e das águas abrindo caminhos do Bem Viver aconteceu na igreja São José Operário e teve como inspirador e homenageado o deputado Luiz Alberto, que em sua trajetória foi atuante em defesa do direito e da luta das comunidades quilombolas. Luiz Alberto teve uma atuação significativa ao lado dos quilombolas na região de Bom Jesus da Lapa e teve papel importante nas discussões e na criação do decreto 4887/2003. Durante o Plenarinho também foi discutido sobre a Chacina de Sarampo, que causou a morte de 4 trabalhadores rurais e ferimentos de 1, sobre a luta dos Fechos de Pasto do Oeste baiano e sobre a grilagem, que juntamente com a milícia e o crime organizado atuam contra os fecheiros da região.

Além disso, o momento também teve espaço para falar sobre todo o processo de violência sobre o povo Pataxó do Extremo Sul da Bahia. Segundo relatos, Welington Ribeiro de Oliveira, o cacique Suruí Pataxó, foi preso, tem outros mandados de prisão e 4 jovens foram assassinados. “Os Pataxós estão sendo violentados por conta do nosso território, porque onde tem indígena é onde tem mata”, relatou uma jovem. Dom Vicente de Paula Ferreira, Bispo diocesano de Livramento de Nossa Senhora, que prestou assessoria neste espaço refletiu que, “são os povos e as comunidades que cuidam das terras, da mata e dos rios, esses são os verdadeiros defensores dos direitos humanos. Por isso, temos que nos organizar e construir um pacto de fé espiritual e luta interreligiosa… Viver é também escolher de que forma queremos morrer. De que lado queremos gastar a nossa vida, do lado dos que matam ou de quem está morrendo?”, disse Dom Vicente.

Já o Plenarinho Fé e Política: 10 anos da Laudato si’ em comunhão com a Campanha da Fraternidade 2025, que aconteceu na Escola Pe. Francisco da Soledade, iniciou-se com a homenagem ao Frei Rutivalter Alves de Brito, nascido no município de Canarana. A memória foi feita pelos familiares e pessoas que tiveram suas histórias marcadas com as passagens de Rutivalter. Durante as falas, lembram de toda a sua dedicação com as famílias, comunidades, catequese, organizações sociais, na luta por justiça e defesa dos camponeses e camponesas e um motivador e inspirador para a Romaria da Terra e das Águas.

Após homenagem, Geri Lima, do Movimento Igreja sem Saída e também assessor da Cáritas NE3, fez alguns apontamentos sobre os 10 anos da Laudato si’ e refletiu sobre as mudanças climáticas que a Bahia tem enfrentado. Além da participação de Geri, os romeiros e as romeiras puderam se expressar na fila do povo para falar sobre as suas lutas e suas experiências com a Casa Comum. Trouxeram ainda as dores dos impactos dos empreendimentos do capital nas comunidades e refletiram que os políticos, o Governo e uma boa parte da nossa igreja está distante dessa temática e dessa luta.

O terceiro Plenarinho tratou do tema Rio São Francisco e outras bacias: Por justiça climática em defesa das nossas águas, aconteceu na igreja Bom Jesus dos Navegantes e teve como inspiradora e homenageada Dona Lindaura. Neste Plenarinho foi apresentado a Experiência do Mapeamento das Águas pelo professor da Universidade Federal Fluminense, Thiago Damas, e por uma representante da Pastoral do Meio Ambiente (PMA). O mapa apresenta 3.050 trechos de águas já secos, entre córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios, num total de 7.120 km de extensão de águas mortas. Além disso, identifica também 580 trechos de águas classificadas como em estado crítico, o que corresponde a 3.837 km de extensão, com destaque às grandes calhas dos rios das bacias apresentadas no mapa.

O esperançar das Juventudes, construindo caminhos para a Ecologia Integral foi o tema do quarto Plenarinho. Este aconteceu no pavilhão da Escola São José e os jovens da Pastoral da Juventude do Meio Popular Danilo Borges e Luana Xavier foram os inspiradores e homenageados. O início das atividades foram marcadas com muita emoção e espiritualidade. Num segundo momento, a Ir. Cleusa Alves da Silva, da Cáritas NE3, foi convidada para falar sobre a Campanha da Fraternidade 2025, sobre a Laudato si’ e a Constituição Federal de 1988, destacando temas sobre os cuidados com a Ecologia Integral, e os desafios que precisamos assumir como sinal de nossa fé. “Essa reunião de jovens para falar sobre esse tema é um dos sinais de esperança. Podemos fazer muita coisa para mudar o cenário da nossa ecologia”, relatou a religiosa.

Logo em seguida, a Jovem indígena Karyne Silva, da Aldeia Kiriri, no município de Barreiras, relatou sobre o Bem Viver e como o meio ambiente é tratado na sua cultura e comunidade. Ressaltou a importância do cuidado e do respeito para com a mãe terra, trazendo maneiras práticas deste cuidado.

O Plenarinho das juventudes também foi marcado com denúncias. O grito “LUTAR NÃO É CRIME”, demonstrou à juventude que a todo tempo há um sistema que tenta calar a voz daqueles que lutam pelas terras e águas, a exemplo dos fecheiros Vanderlei e Solange, moradores da comunidade tradicional de Fundo e Fecho de Pasto de Brejo Verde, em Correntina, que estão presos desde maio. O grito pela luta e pela liberdade de ambos tem ecoado. A juventude grita a liberdade de ambos. Além disso, o momento também contou com a exposição do Mapa sobre a morte das águas no Oeste baiano, apresentado pela professora Isidora Santos, representante da Pastoral do Meio Ambiente (PMA), e pelo professor Thiago Damas.

O último Plenarinho, que teve como tema Crianças: O planeta é nossa Casa Comum, precisamos cuidar dele, foi realizado no Centro Dom Muniz e teve como inspiradores e homenageados as crianças indígenas Xacriabás. O espaço contou com a apresentação de experiências das crianças Xacriabás com a mãe terra através de desenho em cartazes com o tema “Como se encontra a lagoa, suja, sem cuidado”. Na apresentação as crianças afirmaram que ajudaram a comunidade a expulsar os madeireiros da aldeia e lutam para que a lagoa fique mais bonita, cheia de água e de peixe.

Depois dos relatos, as crianças foram divididas em 10 grupos de trabalho, onde pintaram o planeta que temos e em outro papel o planeta que queremos. A maioria deles destacaram o planeta que temos, rios poluídos, desmatamento, queimadas, muito lixo e destruição. Em paralelo, destacaram também o planeta que queremos, com os rios sem poluição e sem lixo, um mundo sem fogo cheio de paz e união.

Para além da fé: um grito pela vida

A 48ª Romaria da Terra e das Águas foi muito mais que um ato de fé. Foi um grito coletivo de resistência diante das ameaças aos bens comuns, uma expressão da força dos povos da terra, das águas e das florestas, uma declaração de que outra forma de viver — com justiça, partilha e solidariedade — é possível.

Durante a Via Sacra, realizada na tarde do sábado, 05, os romeiros e as romeiras usaram o espaço para denunciar os conflitos e ataques sofridos em seus territórios e reafirmarem a resistência popular a partir de uma espiritualidade libertadora. Uma romeira utilizou o espaço para falar sobre os ataques que os povos que defendem e querem o cerrado em pé vem sofrendo. Ela relatou o caso emblemático dos militantes presos, Solange e Vanderlei, e clamou por justiça e pela liberdade dos companheiros. Emocionada,  ela reforçou ainda que “o capital pensa que tudo que tem no nosso cerrado é mercadoria. E, nós não entendemos nossas águas e nosso cerrado como mercadoria. Nós que somos de comunidade tradicional temos um elo muito forte com esse território sagrado e é nele que queremos permanecer e viver. Pode prender a comunidade inteira, mas nós não vamos parar de lutar”, relatou.

Em outra parada da Via Sacra, destacamos o clamor dos indígenas, sobretudo a fala de uma representante do povo Pataxó que denuncia os ataques que suas comunidades vêm enfrentando – nos municípios de Prado e Porto Seguro. “A invasão zero é a peste que está aí para nos engolir, induzindo e conduzindo vários conflitos em nossos territórios entre fazendeiros e as populações indígenas. Mas tenho fé em nosso pai Tupã que eles não vão conseguir, nós iremos resistir”, falou.

Após percurso da Via Sacra, que se iniciou e finalizou na Esplanada do Santuário do Bom Jesus, os romeiros e as romeiras subiram ao altar para um momento de celebração e demonstração da união dos povos enquanto ferramenta de defesa do Bem Viver.

3ª Feira dos Povos

Nas noites de sexta e sábado, 04 e 05, a Romaria também contou com o espaço para a realização da 3ª edição da Feira dos Povos e das Águas, na Praça Monsenhor Turíbio. Mais de 30 romeiros e romeiras comercializaram seus produtos como alimentos, artesanatos, dentre outros produtos da agricultura camponesa.

Para animar a Feira teve muito forró com Naty Rocha, Banda Apoema e Remela de Gato. Além disso, teve também apresentação da quadrilha junina de Bom Jesus da Lapa e o Samba de Roda das mulheres de Carinhanhas. 

Grande Plenária: Compromissos e denúncias

Assim como na carta final da Romaria, apresentada na Grande Plenária, realizada na Gruta de Nossa Senhora da Soledade bem como a fala dos participantes nos plenarinhos, destacou o clamor das comunidades por políticas públicas que assegurem a água como bem comum, acesso à terra, valorização da agroecologia e proteção dos biomas do cerrado e caatinga. Os romeiros denunciaram o avanço do agronegócio, o uso intensivo de agrotóxicos, a grilagem de terras e a privatização das fontes de água, especialmente na região Oeste da Bahia.

O documento apresentado e divulgado e os relatos também denunciam o racismo ambiental, a expulsão de povos originários e comunidades tradicionais de seus territórios e o enfraquecimento de políticas de reforma agrária. Ao mesmo tempo, a carta aponta caminhos baseados no cuidado com a vida, na agroecologia, na solidariedade e na fé dos povos que resistem através de preces e de compromissos.

Leia um trecho da Carta da 48ª Romaria:

“Com ludicidade e criatividade o plenarinho das Crianças assumiu os compromissos de: rios limpos; sem queimadas; sem poluição; sem desmatamento; não jogar lixo no meio ambiente; fazer reciclagem; um mundo com pessoas conscientes, com esperança, com amor, paz e felizes com muitas alegrias para cuidar do planeta. O plenarinho das Juventudes assumiu o compromisso de fazer produção agroecológica com os saberes ancestrais, implantar quintais produtivos e compartilhar experiências nas redes sociais das organizações populares.No de Terra e Território os compromissos foram de seguir defendendo e cuidando da terra, das águas e dos biomas, assim como denunciar toda criminalização de lideranças dos povos indígenas e comunidades tradicionais, defensores dos direitos humanos e da natureza, para o que construir uma rede de defesa e fortalecimento dos povos. No plenarinho São Francisco e outras Bacias, o compromisso assumido é o de mapear e cuidar das águas dos territórios, denunciando os responsáveis por sua destruição. Já no plenarinho Fé e Política, os compromissos assumidos foram os de partilhar saberes, esperanças, desafios, avanços e envolvimentos com a defesa da Casa Comum e pelos direitos socioambientais, como aprendemos com a Carta Encíclica Laudato sí’, do Papa Francisco. Vamos participar ativamente da política, fortalecendo todas as ações em defesa dos direitos humanos e da natureza, animar as lutas das pastorais e movimentos sociais, participar dos coletivos locais de construção do Plebiscito Popular pela redução da escala de trabalho 6X1 e pela taxação das grandes fortunas. Comprometemo-nos a manter erguida a bandeira da fé e política como elementos indissociáveis, pois “a fé sem obra é morta” (Carta de Tiago 2, 26).”

Fotos: Thomas Bauer (CPT-BA/ H3000)
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