Romaria denuncia perseguição e condenação dos povos, das águas e da biodiversidade do Cerrado, que já perdeu mais da metade do seu bioma natural.
A Semana e Romaria do Cerrado que acontece anualmente no Oeste Baiano retomou em 2025, após uma pausa de cinco anos. A última edição aconteceu em 2019, no município de Coribe, e precisou ser interrompida por conta da pandemia da Covid-19. Com o tema “Para onde vamos diante da crise da água e do clima?” e com o lema “Cerrado, jardim de Deus, berço das águas!”, a 7ª Semana e Romaria do Cerrado aconteceu em Serra Dourada, município a 657 km de Salvador.
De 08 a 12 de setembro deste ano, as atividades tiveram início com visitas missionárias em várias comunidades tradicionais e escolas da sede do município e finalizaram com uma caminhada pelas ruas da cidade e a missa na Paróquia São Gonçalo do Amarante.
Durante as visitas às comunidades, cerca de 30 missionários/as ouviram os clamores de camponeses/as que falaram de grandes mudanças no clima da região e da preocupação com o Cerrado ameaçado pela diminuição, escassez e morte de riachos, lagoas, brejos, veredas e nascentes. O sr. José Rodrigues, da Comunidade Poço do Juá relata que “na mina Caldeirão, na Serra do Bode, antes o pessoal dava água ao gado, servia para tomar banho, cozinhar, mas chegou um fazendeiro e colocou um paredão de concreto e secou a mina e a gente tá sem água até hoje”. Foram registradas outras mortes das águas, como a dos Marimbus João Jorge e das Porteiras, dos riachos Caracol, Tauá e dos Porcos, da Lagoa de Nenê, e o secamento de cacimbas e das nascentes Degrau, Caldeirão e Olho D’água e de riachos que estão pedindo socorro, como o São Gonçalo e outros.
Vários fatores foram apontados como quem levam à diminuição das águas, como a abertura de estradas, perfuração desenfreada de poços artesianos, queimadas, uso de agrotóxicos, e principalmente os desmatamentos descontrolados, sem fiscalização pelos órgãos públicos responsáveis.
Camponeses/as estão sendo ameaçados/as e perseguidos/as por defender a biodiversidade e as águas do Cerrado. Durante a caminhada pelas ruas de Serra Dourada, foram feitos depoimentos e denúncias de que os povos estão sendo condenados pelas mãos do agronegócio, como é o caso da prisão arbitrária de Solange e Vanderlei por dois meses e a perseguição a mais cinco camponeses do Fundo de Pasto Brejo Verde, em Correntina, entre maio e julho deste ano.
“Que bom que retomamos a Romaria do Cerrado, depois de muita coisa que passamos. Não podemos admitir que nos condenem. A Justiça tem nos condenado por defender a vida, defender o território e defender o Cerrado!”, comemorou Timóteo Gomes, da Coordenação Nacional do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. E acrescentou que a prisão de Solange e Vanderlei foi injusta, totalmente orquestrada pelo Sistema, pelo agronegócio e por parte do Judiciário, e que todos/as juntos/as vivenciaram a angústia desta prisão.
O Cerrado atualmente é o bioma mais desmatado do país, tendo perdido mais da metade da sua condição original. Desde os anos 1970, o Oeste Baiano enfrenta grilagem, violência, desmatamento, apropriação indevida das águas, assoreamento e morte dos corpos d’água, o que ameaça a vida das comunidades e de toda a Casa Comum. O desmatamento é o responsável por 72% de toda a devastação no bioma, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM, principalmente em áreas rurais privadas e a “principal causa é a expansão agropecuária, responsável por mais de 97% da perda da vegetação nativa nos últimos seis anos”.
A esperança que resta é resistência e a resiliência das comunidades e povos tradicionais, contando com a força de Deus e dos Encantados, em preservar a vida que ainda resta em seus territórios e modos de Bem Viver no Cerrado, “jardim de Deus, berço das águas”.


