Comissão Pastoral da Terra Sul-Sudoeste
Nos dias 18 e 19 de outubro, comunidades quilombolas de Caetité e Muquém do São Francisco se reuniram às margens do rio São Francisco para um encontro marcado pela música, espiritualidade, resistência e esperança. Povos unidos pela história e pela luta, mas separados territorialmente, redescobriram no diálogo e na partilha de experiências um caminho para reconstruir conexões e fortalecer os laços de solidariedade quilombola.
Mística e inspiração
O primeiro dia do encontro foi repleto de alegria, fé e organização coletiva. Inspirados nas palavras de Dom Pedro Casaldáliga, exibidas no vídeo “Pedro, Profeta da Esperança”, os participantes refletiram sobre o sentido profundo da luta popular. A mensagem escolhida resumiu o espírito do encontro:
“O que foi Canudos deve ser o Brasil. O que fizeram Antônio Conselheiro e seus companheiros de caminhada, nós devemos fazer sem medo. Ocupar a terra, que a terra é de Deus e de todos. Em segundo lugar, se organizar, sem coronéis, sem acumuladores, sem exploradores, sem corruptos. E em terceiro lugar, orar, celebrar.”
Foi nesse clima que os moradores da Comunidade Quilombola de Jatobá apresentaram sua história de luta, resistência e conquista. Em relatos emocionados, relembraram a humilhação e a violência sofridas por décadas sob o domínio dos fazendeiros locais, e o caminho percorrido até alcançar a liberdade.


Segundo um dos moradores, a luta começou em 1993, quando as famílias, filhas da terra, passaram a ser cercadas e expulsas de seu território.
“Começamos reivindicando como área de reforma agrária, mas todas as vistorias foram favoráveis aos fazendeiros”, recordou.
A virada veio a partir dos anos 2000, com a parceria da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que ajudou a fortalecer o sentimento de identidade quilombola e a organização coletiva.
“A partir daí começamos a avançar para a conquista do território. Muitos não acreditavam que fosse possível, e os conflitos se tornaram ainda mais violentos, com o uso de pistoleiros para intimidar as famílias. Mas resistimos. Em 2023, conquistamos o título do território. Conhecemos, enfim, o que é liberdade”, pontuou o morador.
A vitória garantiu às famílias de Jatobá um território de 13.700 hectares, que está sendo usado por 170 famílias — uma área antes concentrada nas mãos de uma única família criadora de gado. Hoje o território está nas mãos de quem sempre viveu e trabalhou nele, transformando-o em espaço de dignidade e futuro.
Após a titulação e imissão na posse, no entanto, novos desafios surgiram. Um grupo externo à comunidade tentou invadir e tomar parte do território, alegando que “era terra demais para quilombola”. As famílias se organizaram novamente e defenderam a área conquistada, reafirmando a força da resistência coletiva.


A dura realidade das comunidades quilombolas de Caetité
Enquanto Jatobá comemora a vitória, as comunidades quilombolas de Caetité vivem uma realidade bem diferente. Das 14 comunidades reconhecidas, nenhuma possui o título de seu território, mesmo após três décadas de luta. Segundo seu Geraldo, do Quilombo de Contenda e, liderança local, a falta de apoio do poder público é um dos principais obstáculos:
“Lutamos há muito tempo, mas não temos apoio do poder público local nem estadual. O Quilombo Legal fez algumas medições, mas apenas onde não há conflito. Nenhuma área conseguiu o título.”
Ele também denunciou as limitações impostas nos processos de demarcação: “A comunidade de Contenda tem 70 famílias, mas só 500 hectares medidos. É impossível garantir o futuro assim.”
A situação revela as contradições das políticas de reconhecimento, que muitas vezes, ao invés de reparar injustiças históricas, acabam reproduzindo desigualdades e restringindo o acesso à terra necessária à reprodução social e cultural das comunidades.
Mesmo diante das dificuldades, a conquista de Jatobá renova a esperança. Para Cleonice Dourado, liderança quilombola de Lagoinha da Cobra Caetité, o exemplo da comunidade vizinha é uma inspiração:“Ver que a Comunidade de Jatobá batalhou, persistiu e conquistou nos dá esperança. Se eles conseguiram, nós também podemos.”
Carivaldo, agente da CPT Centro-Oeste da Bahia, destacou que o principal desafio enfrentado e superado pela Comunidade de Jatobá foi a luta pela terra, uma realidade que, segundo ele, marca ainda o atual estágio das comunidades quilombolas de Caetité e muitas outras em nosso estado e no Brasil. Ele ressaltou a importância da mobilização popular — “a luta dos debaixo” — como força fundamental para alcançar conquistas históricas, especialmente o direito à terra.
No entanto, o agente pastoral lembrou que o país ainda carrega um longo passado de escravismo colonial e de exclusão dos povos negros e quilombolas, o que exige um processo contínuo de reparação. Para ele, o desafio agora é garantir a permanência e o fortalecimento das comunidades, o que passa pela implementação de políticas públicas estruturantes, construídas de forma coletiva, planejada e articulada com as lutas sociais e a solidariedade para o avanço numa política efetiva de regularização fundiária.
Os participantes reforçaram que cada vitória quilombola é uma conquista de todos os quilombos e que a unidade e solidariedade entre as comunidades são fundamentais para o avanço da luta por terra e dignidade.
Desafios e necessidades comuns
Os territórios quilombolas enfrentam graves carências estruturais. Faltam políticas públicas em áreas essenciais como saúde, educação, infraestrutura, trabalho e acesso à água.
As comunidades de Caetité destacaram os problemas com a saúde e a falta de água, enquanto Jatobá chamou atenção para as dificuldades com estradas e educação. Esses desafios demonstram a urgência de fortalecer a articulação política dos povos quilombolas e pressionar o Estado por políticas que garantam condições de vida dignas.
Cultura, confraternização e compromisso coletivo
O encontro também foi um espaço de celebração e partilha cultural. A apresentação do reisado da comunidade de Jatobá encantou os presentes, reafirmando a força da tradição e da cultura quilombolas.
No segundo dia, dois amistosos de futebol reuniram as comunidades, e a equipe local saiu vitoriosa em ambas as partidas. O encerramento, realizado nas águas do rio São Francisco, simbolizou a purificação, a alegria e o renascimento coletivo, selando o compromisso de seguir unidos na luta.
O encontro terminou com emoção e esperança renovada. Entre dores, conquistas e sonhos, as comunidades reafirmaram a disposição de seguir em frente, apoiando toda causa que defenda a terra e os direitos dos povos quilombolas.
“Che, Zumbi, Antônio Conselheiro: na luta por justiça, somos todos companheiros.”


