CPT BAHIA

45 anos da CPT na Diocese de Ruy Barbosa e 40 anos do martírio de Zacarias em Pau-a-Pique-BA

Na Beira do Rio Paraguaçu

Cláudio, membro da CPT-BA, nascido na Lapa do Bom Jesus e enraizado, com a Comissão Pastoral da Terra, no semiárido da Bahia. Todos temos consciência de pertencer a uma Diocese católica que é chamada, há tempo, a ser também uma Diocese que, deve ser chamada Diocese Católica e Ecumênica de Ruy Barbosa. Dedico a você, Cláudio, e à sua família, estas minhas linhas que desenrolei chegando em casa. Vejo você, com sua esposa e com uma filha de 9 anos, tão jovem e tão arguta e vejo vocês dois, mãe e pai, “esperançando-me” muito.

Fiquei atento e estou ainda comovido, mesmo sem lágrimas, por nossa 10ª Romaria da Terra e das Águas da igreja de Ruy Barbosa. Domingo, dia 19 outubro 2025, em Pau-a-Pique, município de Marcionílio Souza.

Não esqueço, neste momento de um período de vida forte em que Tere, Iria, Edione e Vitalina, Irmãs Catequistas Franciscanas, anteciparam, em tempos diferentes, na metade dos anos 80, o jeito missionário de nos aceitar reciprocamente, trabalhar pastoralmente juntos e juntas e nos enriquecermos reciprocamente. Entre elas e os “companheiros homens” que no início fomos padre Eugenio Morlini, diocesano de Reggio Emilia (Itália) Frei Ivo Cursino do Santos e eu que assino no final.

Jamais esqueço a presença e o apoio fundamental de Dom Matthias Schmidt, monge beneditino norte-americano. Logo que o conheci, percebi que, na minha opinião, carregava, além da grande tradição beneditina, uma formidável riqueza de humanidade. Ele era o bispo da Diocese que jamais deu uma ordem para ninguém. Ele só dialogava. Foi ele que convidou oficialmente, nós jovens franciscanos conventuais, últimos chegados da Itália, da Basílica do Santo Antônio de Pádua, nos visitando em Curitiba numa nossa casa de formação. Apelou para nós, presentes no sul do país a “dar de nossa pobreza no interior da Bahia”.

Matthias faleceu infartado numa madrugada de domingo, 25 de maio de 1992, quando se preparava para encerrar, com uma eucaristia campal, uma missão popular na região de Utinga, 80km de Ruy Barbosa. Caiu no chão poeirento da cidadezinha de Utinga e logo viajou para Deus.

Veio, como bispo, nomeado para suceder a Dom Matthias, quase um ano depois, Dom André De Witte, nascido na Bélgica de língua flamenga, e já presente na Bahia como missionário diocesano da sua igreja. Dom André seguiu a mesma linha participativa e atenciosa no diálogo de Matthias; ele era um missionário generoso, tocado pelo Espírito, querendo acolher a todos para desvendar também a raiz de uma pobreza permanente e devastadora, na região de Itaberaba e Ruy Barbosa e de todas as cidades de sua primeira Diocese que, apesar das melhoras, continua, até hoje, com situações de precariedade e de migrações forçadas. Dom André de Witte apoiou logo a CPT que já tinha contratado, em períodos combinados, a Drª. advogada. Marta Pinto dos Anjos. Dom André nos deixou definitivamente quando, consultando um hospital em Salvador, já tendo renunciado ao seu cargo de bispo, ouviu e sucumbiu com um diagnostico “esquisito e fulminante” ainda quando estava hospitalizado: entupimento das veias por uma celulite mortal. Lembro Matthias, Marta e André in memoriam. Memória sempre saudosa.

Tentarei descrever agora, outras presenças que participaram, ao redor do Pau-a-Pique, no domingo, 19, para celebrar com a equipe local da CPT-BA, os 45 anos de fundação da CPT de uma região situada no Portal da Chapada Diamantina, 5 anos depois da fundação da CPT Nacional.

Já vou lembrando figuras de pessoas e histórias densas. Foram as pessoas que vieram celebrar esta fundação. Os primeiros a participar desta CPT em formação, já pedindo perdão por possíveis esquecimentos meus, foram os seguintes.

Jerônimo e sua esposa e família foram, entre os primeiros, a participar de uma escola de formação numa casa, onde padre Eugenio e eu trouxemos, numa camioneta emprestada, suja e machucada, o corpo de Zacarias José dos Santos, assassinado numa fatia de terra – poucas tarefas – chamadas de “Pau-a-Pique”. Esta morte foi um assassinato que assustou uma multidão que participou massivamente a uma Eucaristia, de corpo presente, em Marcionílio Souza, sede da Paróquia e do município de Tamburi que já tinha recebido o nome de Marcionílio Souza (nome do fazendeiro).

Todos sabíamos que este assassinado visava impedir qualquer sinal de desapropriação de terras da União, sem documentos, mas com presenças constantes e pacificas de posseiros. A maioria dos pobres já tinham consciência disso.

Na tarde da Romaria, ecoaram parentes, filhos, amigos e companheiros do falecido Zacarias. Seu crime “imperdoável” foi a ousadia de iniciar a limpar umas tarefinhas de terra devoluta, para construir uma sala de encontros para uma delegacia sindical e uma igrejinha para as rezas tradicionais. O entusiasmo dos conhecidos e parentes de hoje, 40 anos depois do assassinato, responderam com uma vontade explosiva de fazer memórias e se reencontrar para contar as versões desta história de morte.

Na boca e no coração dos romeiros deste mesmo domingo, todos fizemos memória unânime, do padre Eugênio Morlini. Missionário da Diocese italiana de Reggio Emília, se uniu conosco para atender também esta região, e aproveitando a propaganda da chamada Nova República de Tancredo Neves, lançou a ideia de visitar o tal de INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), em Brasília, para denunciar a violência contra os posseiros, filhos do finado Zacarias recebidos também por dom Avelar Brandão que se solidarizou com eles. Todos reivindicavam a desapropriação destas terras banhadas com o sangue inocente de Zacarias. Apareceu também com entusiasmo, Otília Ballio, professora, irmã de Dito, voluntária de São Paulo e outros e outras (professoras, teólogos e teólogas e etc.), “formandos em formação”, que ofereceram e debateram, junto com padre Eugênio e Otília, uma programação, combinada em conjunto, com uma série de assuntos sobre questões sociopolíticas, econômicas e religiosas.

Na Romaria estavam também, para se alegrar conosco na simplicidade das solidariedades mais importantes, Dito e sua esposa, professora Marizete, que trabalham em Itaberaba. Vieram também, para nos animar, Tânia e Jakes de Irecê, em nome das “grandes causas” que passavam pela coordenação regional da CPT-BA.

Sem esquecer, como eu esqueci não reconhecendo-o, o amigo Gratiston e sua esposa de Itaetê e Colônia. Gratiston carregava no peito dois retratos/símbolos. Eram dois aspectos vivos que a CPT não esquece: a) o Retrato de dom Matthias Schmidt, sinal de uma Fé aprofundada e concreta num Deus que ama e liberta; e, b) o retrato de Marta Pinto dos Anjos, filha do interior de Mucugê, mas já residente, há tempo, em Salvador. Marta representava uma sociedade e um grupo novo “fantástico e valioso” de advogados formados sobretudo como gente livre e comprometida que “deverá sempre lutar para fazer respeitar a lei maior que é o respeito dos direitos de todos e todas”. O retrato de Marta Pinto dos Anjos era um grito de uma sociedade de gente livre que deve sempre desvendar e defender os direitos de todos. Com as leis na mão, na cabeça e na boca para defender lavradores, posseiros, indígenas e negros e todas as minorias também discriminadas, como os LGBT…acrescentando sempre novas letras.

Não se falou muito dela na Romaria, mas eu não esqueci, como nossa colaboradora preciosa, uma vizinha da CPT-BA, que esteve muitas vezes ao nosso lado: Roseilda Cruz. Jamais esqueceremos seus valiosos e longos anos de documentarista, formada cientificamente, para registrar e publicar, anos a fio, a os conflitos e mortes, por assassinatos e torturas, de dezenas de trabalhadores e trabalhadoras da Bahia, por jagunços, a mando e pagos por fazendeiros.

Não esqueço também que, nesta nossa Romaria da Terra e das Águas”, teve a presença de Cleusa, presidenta nacional da Cáritas Brasileira, migrada desde Goiás, sua terra, até Macajuba, município vizinho de Ruy Barbosa e atualmente, morando na Lapa do Bom Jesus. Ela presta serviços preciosos, articulando pastorais do campo e assessorando a Cáritas que está, a cada dia mais atenta e inserida na luta pela assistência dos fragilizados e na conquista dos direitos, sempre “magistralmente e arrogantemente negados” pelos grupos de poder econômico e político que vemos a toda hora nos canais das televisões e nas mídias eletrônicas mais poderosas.

Nossa Romaria teve a presença de cerca de 200 trabalhadores e trabalhadoras dos acampamentos e assentamentos das Dioceses de Jequié, Amargosa e das terras que pertencem à Diocese de Ruy Barbosa, nas beiras do rio Paraguaçu, que ainda lutam para serem reconhecidos como protagonistas.

Eu agradeço aqui e lembrei, com prazer, também nossas equipes missionárias, com leigos e leigas, da Áustria, cujos nomes são lembrados ainda hoje, como uma bênção, nos campos da CPT e de outras entidades parceiras. Entre os variados nomes, Adi e Hermín Reichartzeder com seus filhos; Ângela e Pedro de Viena. Com estes últimos, veio, muito pequeno, Daniel que já casou. Com sua esposa, já deram um neto a Ângela e Pedro. Todos eles, seguem mantendo contatos de amizade solidária com as famílias que conheceram e acompanharam nestes anos passados conosco. Todos eles, da Áustria e de outras terras distantes, são sempre discretos e concretos. Foram e continuam sendo missionários e missionárias, valiosos servidores de conhecimentos e explicações libertadoras, em Boa Vista do Tupim, Andaraí, Itaetê, Bonito e Utinga. Morro do Chapéu com irmã Tere Maria da CPT, que os convida e aponta rumos.

Nesta décima Romaria dos 45 anos de fundação desta abençoada Comissão Pastoral da Terra, nós pudemos salientar alguns aspectos que acho oportuno ressaltar. Mesmo fazendo um esforço de humildade, não podemos não chamar de aspectos proféticos alguns desses. Diante deles, ainda nos questionamos e procuramos nos manter fiéis.

Sentimos o desafio de resistir, para evitar retrocessos na interpretação do evangelho e das contundentes e claras expressões bíblicas que são “palavras do Deus encarnado que foi Jesus”. Feito gente igual a nós em tudo, exceto “no pecado”, levantamos sempre a exigência de banir absolutamente a covardia, a hipocrisia e a indiferença. Como nos exortou, por mais de 10 anos, o saudoso Papa Francisco.

O apóstolo Pedro, no dia de Pentecostes e Paulo de Tarso no seu “evangelho universal”, derrubaram todas as restrições e divisões inúteis com a força do Espírito de Jesus, matado na Cruz e vencedor ressuscitado.

Que este nosso intercâmbio possa contribuir para ser sempre assumido toda vez que fazemos, ecumenicamente o sinal da Cruz. Conseguiremos superar a letra formal de uma fé fria ou esfriada por nossas mediocridades ou por nossos carismas sentimentais e superficiais que se recusam e tem medo da inevitável e necessária dimensão política, no sentido mais amplo de nossas ações e de nossas tomadas de posição.

Na nossa 10ª Romaria houve um momento que escutamos, num silêncio impressionante. Foi a chamada ao martírio – testemunho total do amor solidário – das Bem aventuranças escritas nos evangelhos. Foram proclamadas pelo padre de Marcionílio Souza, presença amiga e solidária, na Romaria. Foram atualizadas por duas mulheres, para o nosso hoje. Elas devem marcar a evolução necessária do Antigo ou Primeiro pacto dos proto-patriarcas e matriarcas Abraão e Sara. Com Maria de Nazaré e o apoio de José, o carpinteiro, haveremos de contribuir para terras e águas! Preservadas e renovadas.

Essa 10 Romaria da Diocese de Ruy Barbosa arriscava até de retomar uma desculpa vergonhosa de alguns, poluídos por certo poder clerical. Ainda hoje, poderão dizer que nós não podemos passar por cima dos chamados limites e “confins canônicos” de três Diocese canonicamente autônomas e independentes. Nada contra esta autonomia e independência de cada Diocese. Fica, porém, uma pergunta e uma resposta inquietante: os grupos populares, sedentos de uma fé transformadora e real, assumindo com estreiteza mental, leis e os moldes canônicos, deveriam ser abandonados e deixados sozinhos? Absolutamente, não!

Graças ao Espírito Santo, a CPT de 45 anos atrás e graças ao sangue de Jesus e do mártir Zacarias José dos Santos, em Pau-a-Pique, a CPT nos manteve no rumo certo e nos apontou mais um impulso de unidade e de força do Evangelho.

A Bíblia pode acompanhar também, para estas três regiões de três Dioceses recanteadas, a construção de uma sementeira renovada a ser sempre reiniciada e cuidada, para produzir frutos, também nos recantos que se limitam entre elas em Jequié, Amargosa e Ruy Barbosa.

Amém!

Luciano Bernardi, Frei Franciscano.

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