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Comunidades quilombolas celebram o Dia da Consciência Negra em Torrinha e reforçam a luta pela resistência e pela ancestralidade

“Existe uma história do negro sem o Brasil. O que não existe é uma história do Brasil sem o negro”. Januário Garcia

Organizado pela Articulação Quilombo Liberdade (AQL), o último sábado, 22, foi marcado por um grande encontro entre comunidades quilombolas dos municípios de Barra e Muquém do São Francisco. A celebração do Dia da Consciência Negra aconteceu na comunidade quilombola de Torrinha, município da Barra, e reuniu centenas de pessoas em torno do tema “Zumbi dos Palmares, a luta continua”.

O evento, que ocupou todo o dia, foi espaço de memória, afirmação identitária e fortalecimento da organização comunitária. A programação contou com torneio de futebol society, rodas de Capoeira, apresentações de São Gonçalo, Reisado e outras manifestações culturais tradicionais. À noite, o forró encerrou a festa em clima de celebração e pertencimento.

As apresentações culturais emocionaram o público pela força simbólica e pela criatividade próprias das comunidades quilombolas. No torneio de futebol, o quilombo Jatobá conquistou o título de campeão, enquanto o quilombo Curralinho ficou como vice.

Para muitas famílias, o dia foi mais do que festa: foi afirmação política e demonstração da força coletiva que sustenta a luta quilombola na região.

Vozes das comunidades

Para Geovan Alves de Souza, presidente da Associação Quilombola de Torrinha, o encontro marca um novo capítulo para a AQL.“É início de uma nova história. A reunião de todas as comunidades, como foi esse dia, fortalece a luta”, relata.

Marivalda Silva de França, presidenta da comunidade quilombola Juá (Barra), destacou a força ancestral que sustenta o presente. “Se hoje podemos falar e expressar nossa cultura é porque nossa ancestralidade lutou por isso. Cada apresentação é uma forma de dizer que continuamos resistindo. Dandara Palmares é minha referência; que possamos ser Dandara onde formos. Viva Dandara, viva Zumbi, viva a resistência do povo negro”, fala.

Da comunidade de Cipó, Vanessa Marques celebrou a união proporcionada pelo encontro. “Foi muito bom. Podemos ver que as comunidades estão articuladas, compartilhar nossas culturas e celebrar esse 20 de novembro tão importante. Que venha o próximo ano.”

Para Edinaldo Lopes Leitão, presidente da Associação de Curralinho, o evento reforça laços fundamentais. “O encontro foi de diversão e reflexão, fortalecendo a amizade, a união e a luta pelo reconhecimento dos territórios, valorizando nossas culturas ancestrais e a participação da juventude no autorreconhecimento e no pertencimento ao seu quilombo.”

A juventude também marcou presença. Júlia Aparecida Prudente, jovem da comunidade de Cipó, afirmou: “A gente aprende com nossos ancestrais como era a vida deles, e isso fortalece nossa cultura quilombola.”

Reflexão e luta: memória de Zumbi e o apagamento histórico

No momento de reflexão política, agentes da Comissão Pastoral da Terra destacaram o significado histórico do 20 de novembro:

“Refletir sobre o 20 de novembro é fazer referência a Zumbi dos Palmares como símbolo da resistência negra. A lei que institui essa data é de 2011, mas o ano da morte de Zumbi só foi descoberto em 1970, três séculos depois. Isso evidencia o apagamento da história negra na construção do Brasil, um apagamento que ainda acontece hoje. Celebrar essa data é afirmar nossa resistência.”

Os agentes reforçaram ainda a importância da organização comunitária: “Quando uma comunidade quilombola luta por seus territórios, ela honra quem veio antes. Agradecemos à nossa ancestralidade por tudo que enfrentou, para que hoje estivéssemos aqui, livres, celebrando nossas lutas.”

Ao final do dia, o sentimento coletivo foi de gratidão, orgulho e renovação da esperança, com expectativa para um novo encontro em 2026.

Viva a luta quilombola

A Articulação Quilombo Liberdade (AQL) é uma organização informal que reúne comunidades quilombolas dos municípios de Barra, Ibotirama, Muquém do São Francisco, Wanderley e Xique-Xique. A articulação tem como missão fortalecer a resistência e a luta pelos direitos territoriais e socioambientais das comunidades.

A iniciativa contou com apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT – Centro Oeste da Bahia – Núcleo Barra), STTR de Barra, FUNDIFRAN, grupo de capoeira Eu Negro, de Morpará, e Prefeitura Municipal de Barra.

Comissão Pastoral da Terra, equipe Centro Oeste da Bahia, Núcleo da Diocese da Barra.

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