Escrevemos esta carta em manifestação de nossa profunda solidariedade à vítima da grave violência sofrida nesta semana em Caetité, fato ocorrido na noite de domingo 17 de maio. O agressor, seu ex-companheiro, é instrutor físico de uma renomada academia da cidade. Pelos relatos, as agressões psicológicas e verbais já vinham ocorrendo muito antes da violência física propriamente dita, evidenciando o ciclo silencioso que antecede o estopim da brutalidade.
Reafirmamos que, quando uma mulher sofre violência, toda a sociedade paga o preço: a família, a comunidade e o município são profundamente impactados. É preciso lembrar que as mulheres são responsáveis por injetar mais de 40% do orçamento familiar direto na economia, além de assumirem a imensa maioria — quando não a totalidade — do trabalho doméstico e de cuidado. Segundo dados do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres de casa e ao cuidado com pessoas, o que representa quase o dobro das 11,7 horas dedicadas pelos homens. É essa jornada invisível que verdadeiramente movimenta a vida e a economia, tanto local quanto mundial.
No entanto, apesar de sustentarem a base da sociedade, as mulheres continuam sendo as principais afetadas pela violência, que se manifesta de forma doméstica e urbana através das vertentes física, moral, patrimonial, psicológica e sexual. De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2025 foram registrados 1.470 casos de feminicídio no Brasil. Esse perigo não é anônimo: a grande maioria dos casos de violência doméstica é cometida por parceiros ou ex-companheiros das vítimas, transformando o próprio lar no lugar mais inseguro. Não é à toa que nomeamos essa brutalidade como violência de gênero: as mulheres são violentadas pela ordem social vigente e pelo simples fato de serem mulheres. O aspecto mais brutal desse cenário é o atrelamento entre patriarcado, gênero, machismo e capitalismo, sistemas que operam juntos para reproduzir as violências e explorar o trabalho feminino não reconhecido.
Sabemos, ainda, que o processo de racialização em nossa sociedade brasileira — historicamente fundada na escravidão — agrava drasticamente esse cenário. De acordo com o Atlas da Violência, mulheres negras têm 1,7 vez mais risco de serem assassinadas no Brasil em comparação com mulheres não negras, representando mais de 66% das vítimas de homicídio feminino. Contudo, de maneira geral, todas as mulheres correm risco pelo fato de viverem em uma sociedade cuja educação e cultura preservam a ideia retrógrada de que elas devem obediência ou de que são inferiores. Esse preconceito se reflete, inclusive, no mercado de trabalho, onde as mulheres recebem, em média, 20,9% a menos que os homens exercendo as mesmas funções, segundo o Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho.
Escrevemos de maneira coletiva por entender que, enquanto pastorais, movimentos e organizações da sociedade civil que pautam o Bem Viver, temos como horizonte uma sociedade sem violências, na qual todas as pessoas e a natureza tenham condições de vida com dignidade e integridade. Referenciamo-nos na encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco, que afirma que uma vida sem violência exige uma mudança profunda na educação e na cultura, restaurando a dignidade humana nas relações diárias.
Vimos, através desta carta-manifesto, repudiar veementemente toda ação de violência contra as mulheres em toda sua diversidade. Afirmamos, também, que não é tempo de silêncio enquanto uma mulher sofrer violência dentro ou fora de sua casa. Não há espaço para a omissão quando as estatísticas nos mostram que, em 2025, a média foi de quatro mulheres assassinadas por dia. Diante disso, não nos calaremos enquanto esses casos de agressão continuarem existindo.
Assinam esta carta:
Comissão Pastoral da Terra
Cáritas Diocesana de Caetité
Movimento pela Soberania Popular na Mineração
Consulta Popular
26 de maio de 2026



