CPT BAHIA

Lançamento do Caderno de Conflitos 2025 aconteceu em Salvador, com homenagens ao centenário de Milton Santos 

O evento reuniu lideranças populares, representações de organizações sociais e estudantes no dia 18 de setembro

“Terra, território e vida: sempre! Milton Santos, presente! CPT, 50 anos, presente!” A mística de abertura do lançamento foi pensada para apresentar a trajetória de Milton Santos conectada à realidade histórica de cada tempo. Parafraseando o geográfo, a professora Gilca Garcia de Oliveira, integrante do GeografAR e docente dos programas de pós-graduação em Economia e em Geografia da UFBA, lembrou da importância da comunicação ao enfatizar que a “comunicação é troca de emoção”. Assim, a docente, que dividiu a mediação do evento com o agente da CPT Edinaldo Lopes, convidou os demais integrantes da mesa e deu início ao evento, que foi recepcionado também pela pró-reitora de Pesquisa, Inovação e Criação da UFBA, Olívia Cordeiro

Mística inicial

Gilca Garcia de Oliveira, integrante do GeografAR e Edinaldo Lopes na mediação do evento 

O segundo momento do lançamento foi dedicado à divulgação dos dados, com facilitação de Marina Rocha e José Beniezio, ambos agentes da CPT. Os dados do Caderno de Conflitos da CPT revelaram diferentes dimensões dos conflitos no campo baiano. Por cinco anos consecutivos a Bahia se manteve no pódio em número de conflitos e registrou o terceiro maior número de ocorrências (154), ficando atrás apenas do Maranhão (209) e do Pará (179). No estado baiano foram registrados 116 conflitos por terra em 2025, com 9.722 famílias impactadas diretamente. Por outro lado, foram construídas 13 ocupações, sendo dez sem terra e três indígenas, com participação de 1.226 famílias e 2 acampamentos protagonizados também por sem terra.

A agente da CPT, Marina Rocha, afirmou com pesar que os resultados ainda se mantêm desafiadores e preocupantes. “Foram 116 conflitos registrados envolvendo quase 10 mil famílias, o que demonstra a dimensão da disputa no estado”, comentou. Os números comprovam a dimensão da “perversidade” da globalização, alertada pelo intelectual Milton Santos. Beniezio chamou a atenção para o encolhimento sistemático da agricultura familiar, com redução de 10% nos últimos dez anos, por outro lado, o agronegócio patronal avançou mais de 45% no mesmo período. “Isso revela que há menos famílias sustentando a produção, e forte tendência de concentração  fundiária”, sinalizou.

Dez trabalhadores rurais sem terra, sete indígenas e quatro posseiros tiveram as vidas ceifadas no campo baiano em 2025, registrando um aumento de 100%  nos casos em relação a 2024. Apesar de ter como principal agente causador fazendeiros, a anuência do estado é flagrante. “O estado tem atuado como aparato opressor, vemos o avanço das milícias e pouquíssimas propostas concretas que pautam o avanço da reforma agrária”, comentou Thiago Rodrigues, do GeografAR. 

Angela, da Serra da Chapadinha, localizada no Sul da Chapada Diamantina,  ilustra a resistência histórica da sua comunidade com o apoio da CPT  contra o avanço da mineração e da grilagem. “Sou de família de pequenos agricultores, meu avô não se acovardou, nem se acomodou. Quando chegou a destruição disfarçada de progresso, a CPT olhou para aquela gente. Quando pergunto para minha mãe a importância dos movimentos sociais ela afirma que os movimentos fortalecem a nossa  capacidade de sonhar”

Celso Favaro, da UNEB, conta a genealogia dos cadernos de conflitos, que antes de 1985 surgiram como recortes de jornais que eram guardados em pastas. “O sindicalismo ainda não tinha a cultura de documentar esses dados e a CPT passou a realizar esse trabalho”, comentou. O trabalho que foi iniciado na década de 80 de forma artesanal hoje trata-se de um dos mais importantes acervos documentais sobre a luta por terra e território no Brasil. 

Celso Favaro, da Uneb trouxe um histórico do Caderno de Conflitos desde o nascimento na década de 80

A relevância do Caderno de Conflitos da CPT é endossada pela advogada popular e coordenadora administrativa e financeira da Associação de Advogadas/os de Trabalhadores Rurais do estado da Bahia (AATR-BA), Lays Franco. “Nós utilizamos bastante o caderno de conflitos para a defesa dos territórios, na defesa das comunidades e movimentos. É muito importante partilhar esses dados que são o triste retrato dos conflitos do campo baiano. E hoje,  o Oeste da Bahia é o que mais nos preocupa, são processos muito complicados os da região”

Lays Franco, advogada popular e coordenadora administrativa e financeira da AATR-BA

Por outro lado também, apesar da evidente necessidade dos cadernos na atualidade, Alcione Corrêa, ousa imaginar um mundo sem eles. “Quero que o caderno de conflitos da CPT um dia seja publicado em apenas uma página onde se lê: sem conflitos”. A ativista e ambientalista, que junto com seu companheiro, Marcos Fantini, sofreu um atentado criminoso, na Toca do Lobo, posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, localizado na Serra da Chapadinha, no sul da Chapada Diamantina, fez um forte desabafo.

Alcione Corrêa e Marcos Fantini ativistas e ambientalistas que atuam em defesa da Serra da Chapadinha 

“Só estamos vivos pela força dos encantados, foi com uma arma apontada para a cabeça que vemos que o estado brasileiro tem sido cúmplice, nós somos exceção, o capital é quem manda”.  O local é alvo de disputa de interesses para a atividade minerária, grilagem de terras e desmatamento. Em 31 de agosto, o governador Jerônimo Rodrigues assinou o decreto que cria o Refúgio de Vida Silvestre Serra da Chapadinha. 

A ganância e o abandono também são velhos conhecidos da comunidade de Gamboa de Baixo, ocupação tradicional e pesqueira que luta por direitos no território. É o que conta Ana Caminha, liderança histórica do local. “São projetos que não incluem a comunidade, a Av. Contorno está virando um mirante, enquanto isso, a lideranças estão sendo marginalizadas, dentro de um território negro tradicional.”

A Comissão Pastoral da Terra elabora desde 1985, há 40 anos, o relatório Conflitos no Campo Brasil, importante documento que aborda quais são os principais atingidos e tipos de conflitos a que os camponeses estão submetidos no país, quem os gera e quais são as formas de resistência popular. O levantamento é do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da Comissão Pastoral da Terra (Cedoc/CPT).

Fotografias: Thomas Bauer (CPT-BA)

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