CPT BAHIA

Ano Jubilar CPT-BA: Presença, Resistência e Profecia marcam os 50 anos de caminhada ao lado dos povos

Diosvaldo Filho – Comunicação CPT-BA

O ano de 2026 inaugura um tempo de memória, celebração e compromisso renovado para a Comissão Pastoral da Terra na Bahia. Ao completar 50 anos de atuação, a CPT-BA inicia seu Ano Jubilar sob o lema “Presença, Resistência e Profecia – A terra a Deus pertence”, reafirmando uma trajetória profundamente enraizada na defesa da vida, dos territórios e da dignidade dos povos do campo, das águas e das florestas.

Esta reportagem abre uma série especial que será publicada ao longo de todo o ano, dedicada a revisitar a história, destacar os desafios contemporâneos e projetar os caminhos futuros de uma das mais importantes organizações de defesa dos direitos territoriais no estado e no país.

“Mais do que uma marca simbólica, o jubileu representa a continuidade de uma missão construída no chão das comunidades, nos acampamentos, nas beiras de estradas, nas áreas de conflito e nos territórios onde a luta pela terra e pela vida permanece como realidade cotidiana”, destaca o secretariado da CPT-BA.

Origem em tempos de conflito e injustiça

A CPT foi criada em 1975, em âmbito nacional, em um contexto marcado pela intensificação dos conflitos agrários durante a ditadura militar brasileira. Sua origem está profundamente ligada à ação pastoral inspirada pela Teologia da Libertação e pelo compromisso da Igreja com os pobres e marginalizados, assumindo como princípio fundamental a presença solidária junto aos trabalhadores e trabalhadoras do campo.

Na Bahia, sua atuação começou em meio à expansão do latifúndio, à expulsão de comunidades tradicionais e à concentração fundiária que historicamente marcou o território. Desde então, a CPT-BA passou a desempenhar um papel central no acompanhamento de comunidades camponesas, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, fundos e fechos de pasto e outras populações tradicionais.

Sua presença nunca se limitou à observação distante. Ao contrário, a CPT construiu uma prática baseada na escuta, no acompanhamento direto das comunidades e no fortalecimento da organização popular, contribuindo para que os próprios sujeitos se tornassem protagonistas de suas lutas.

Presença que protege, resistência que constrói, profecia que denuncia e anuncia

A dimensão da presença sempre foi o fundamento da atuação da CPT. Estar junto significa acompanhar as comunidades em seus momentos mais difíceis, registrar violações, apoiar processos organizativos e contribuir para que a vida prevaleça diante das ameaças.

Ao longo de cinco décadas, essa presença se traduziu em resistência concreta frente a despejos, grilagem de terras, violência no campo e destruição ambiental. Em muitos territórios da Bahia, a CPT foi e continua sendo uma instituição a manter acompanhamento permanente, oferecendo suporte político, formativo e humano às comunidades. Ao mesmo tempo, sua ação é marcada por um caráter profundamente profético. Denunciar as injustiças, anunciar a possibilidade de um mundo mais justo e afirmar a dignidade dos povos sempre estiveram no centro de sua missão pastoral.

Essa dimensão profética se expressa tanto na atuação junto às comunidades quanto na incidência pública, contribuindo para que os conflitos, muitas vezes invisibilizados, ganhem reconhecimento social e político.

Para milhares de famílias no campo baiano, a história da CPT se confunde com suas próprias histórias de resistência. Em contextos marcados por ameaças, expulsões e violência, sua atuação contribuiu diretamente para a permanência de comunidades em seus territórios e para o fortalecimento de suas formas de vida.

A CPT tem sido fundamental na formação política, na promoção de espaços de articulação e na construção de redes de solidariedade. Seu trabalho contribuiu para o fortalecimento de movimentos sociais, associações comunitárias e processos coletivos de defesa territorial. Mais do que uma instituição, a CPT se tornou referência de confiança e apoio para povos que historicamente enfrentam desigualdades estruturais e exclusão.

Produção de memória e referência para pesquisas sobre conflitos no campo

Um dos pilares mais reconhecidos da atuação da CPT é a sistematização e divulgação anual dos dados sobre violência e conflitos no campo, por meio do relatório Conflitos no Campo Brasil, produzido pela Comissão Pastoral da Terra.

Este relatório se consolidou como a principal fonte de dados sobre conflitos agrários e socioambientais no país, sendo amplamente utilizado por universidades, pesquisadores, organizações de direitos humanos, órgãos públicos e instituições nacionais e internacionais.

Na Bahia, os dados sistematizados pela CPT têm sido fundamentais para compreender a dinâmica dos conflitos territoriais, evidenciar padrões de violência e subsidiar pesquisas acadêmicas, políticas públicas e ações de defesa de direitos.

Mais do que números, o relatório representa um instrumento de memória e denúncia. Ele torna visíveis histórias que muitas vezes seriam silenciadas e contribui para que a sociedade compreenda a dimensão das disputas territoriais e seus impactos sobre a vida das comunidades.

Ano Jubilar será construído de forma coletiva

Como primeira ação do Ano Jubilar, a CPT-BA lançará uma chamada pública voltada a movimentos sociais, artistas e parceiros para a construção da identidade visual oficial dos 50 anos, por meio de um concurso artístico. A iniciativa busca garantir que a celebração seja construída de forma participativa, refletindo a diversidade dos territórios e das lutas acompanhadas pela pastoral.

Ao longo do ano, estão previstas diversas atividades, incluindo encontros territoriais, ações de memória, celebrações, publicações e iniciativas de comunicação, compondo um roteiro que pretende articular celebração, denúncia e anúncio. A proposta é que o Ano Jubilar seja não apenas um momento de recordar o passado, mas de fortalecer o presente e renovar o compromisso com o futuro.

Uma história que continua sendo escrita

Celebrar os 50 anos da CPT-BA é reconhecer uma trajetória marcada pela coragem de estar ao lado dos povos em contextos de conflito e vulnerabilidade. É afirmar a importância da memória como instrumento de resistência e reconhecer que a luta por justiça no campo permanece urgente.

Ao inaugurar este Ano Jubilar, a CPT reafirma sua missão de seguir presente onde a vida é ameaçada, resistindo ao lado dos povos e anunciando a esperança como horizonte.

Mais do que uma celebração, os 50 anos da CPT-BA representam a permanência de um compromisso histórico com a defesa da terra, da vida e da dignidade, uma caminhada construída coletivamente e que segue em movimento, guiada pela presença, pela resistência e pela profecia.

Gostou desse conteúdo? Compartilhe