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Comunidades tradicionais se reúnem em Encontro da Articulação dos Povos do Cerrado e da Caatinga em Muquém, Itaguaçu da Bahia

Entre os dias 29 e 31 de agosto, o povoado de Muquém, em Itaguaçu da Bahia, foi palco do III Encontro da Articulação dos Povos do Cerrado e da Caatinga: Resistência das Comunidades Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto. Um espaço de troca, reflexão e celebração da luta dos povos da Bahia.

O encontro reuniu representantes de diversas comunidades (geraizeiros, ribeirinhos, quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco, extrativistas, agricultores familiares, pessoas do campo e das cidades), que partilharam vivências e estratégias diante dos desafios que ameaçam seus territórios, como a grilagem de terras e os projetos de irrigação que impactam diretamente o modo de vida tradicional.

A programação contou com momentos de mística e espiritualidade, rodas de conversa e oficinas práticas. Um dos destaques foi a abertura do evento com uma cavalgada, expressão cultural das comunidades tradicionais de Itaguaçu da Bahia, que reuniu toda a comunidade, incluindo os jovens. Em cortejo, às comunidades e os participantes saíram da escola da comunidade até o local do encontro, celebrando a tradição e marcando de forma simbólica o início das atividades.

Durante o evento, o advogado André Sacramento, da AATR (Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais), conduziu discussões sobre a política de irrigação no Brasil e os mecanismos de grilagem de terras. Em uma das suas falas, Sacramento destacou a importância de compreender a cadeia dominial da terra, ou seja, o histórico de registros e transmissões de propriedade que muitas vezes revela a origem da grilagem. Segundo ele, em boa parte dos casos, esse processo é marcado por fraudes, falsificações e sobreposição de títulos, instrumentos usados para legitimar ilegalmente a expulsão dos povos,  das comunidades tradicionais e dos seus territórios. “Quando analisamos a cadeia dominial, percebemos que a terra nunca foi de quem diz ser dono. Essa é uma ferramenta jurídica fundamental para comprovar o direito histórico das comunidades de Fundo e Fecho de Pasto”, afirmou.

Uma das moradoras do Muquém também recordou a longa relação da comunidade com o território. “Meu pai e meus avós já viviam aqui há muito tempo, criando nossos animais, plantando e cuidando da terra. Agora chega esse pessoal do Projeto de Irrigação Baixio de Irecê querendo interferir no nosso modo de vida, como se a gente não tivesse história. Mas nós temos raízes aqui e não vamos abrir mão delas”, afirmou.

As consequências da pressão sobre a terra já se fazem sentir de forma concreta. O desmatamento promovido nos arredores tem desorganizado o equilíbrio ambiental e provocado a aproximação de animais silvestres. Na comunidade, relatos e imagens apontam que as onças, sem espaço e alimento em seu habitat natural, passaram a atacar os criatórios, gerando perdas para as famílias que dependem desses animais para sobreviver e para a sua sustentabilidade*.

Outro momento marcante foi o jogo “As Estratégias de Resistência”, conduzido por Mário Campagnane. Utilizando a dinâmica do cabo de guerra, os participantes refletiram sobre as forças do capital que pressionam os territórios e sobre a importância da união comunitária para resistir.

O encontro também dedicou espaço às crianças, com jogos, contação de histórias com fantoches e atividades educativas. Oficinas de estamparia de camisas e apresentações culturais, como a música de sanfoneiros e outras expressões artísticas, reforçaram a riqueza cultural e identitária das comunidades.

Mais do que um espaço de debate, o encontro reafirmou o compromisso coletivo das comunidades de Fundo e Fecho de Pasto com a defesa do território, da tradição e do direito de existir. O encontro foi realizado pelo povo com o apoio de organizações sociais: Escola de Ativismo, AATR, CPT (Centro Oeste), e a Agência 10envolvimento.

*Detalhes sobre a presença de onças no território de Itaguaçu da Bahia estão disponíveis em uma série de reportagens feita com parceria entre CPT e o site Meus Sertões.

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