
Essa área faz parte dos mais de 300 mil hectares de terra que foram griladas entre as décadas de 1970 e 1990, espaço historicamente utilizado por mais de 700 famílias de camponeses e camponesas de 3 municípios, impactando seus modos de vida e provocando uma verdadeira destruição do bioma caatinga, de matas ciliares, lagoas marginais e do próprio Rio São Francisco.
Para viabilizar o projeto, a CODEVASF propõe de maneira arbitrária, desterritorializar as comunidades extinguindo seus costumes e modos de vida, prejudicando as principais atividades que geram economia e renda para as famílias e que dependem única e exclusivamente do território ocupado: a criação caprina e bovina, e extrativismos de frutos da caatinga.
O mutirão teve como objetivos animar aos povos atingidos a reafirmarem seu modo de vida e lutar pela defesa de seus territórios uma vez que se tratam de localidades reconhecidas e certificadas como povos e comunidades tradicionais; discutir o plano de ação discriminatório rural proposto pela Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA); e contribuir para o fortalecimento da organização interna desses grupos.
Durante a semana foram reunidas as populações de Carneiro, Boa Vista, Nova Boa Vista, Porto Franco, Volta da Caatinga, Roçado, Sítio, Muritiba e Vista Nova, na cidade de Xique Xique; e Nova Vereda, Muquém, Poço Fundo, Várzea da Cerca, Poço Grande, Pau Seco, São João, Esconso e Conceição, em Itaguaçu da Bahia.

A proposta feita pela CDA, para os grupos consultados, se configura como um verdadeiro desrespeito a seu modo de vida, uma vez que a área proposta está distante de atender as reais necessidades dos povos tradicionais. A área é distante e já ocupada por famílias de povoados vizinhos e é insuficiente para atender a demanda das 700 famílias, até porque alaga nos períodos chuvosos tornando inviável a utilização para solta de animais. Representantes de Muquém, de Itaguaçu da Bahia, que estavam presentes na audiência chegaram à conclusão que o órgão do estado não tem interesse em defender os interesses das comunidades e que sempre está do lado dos empresários.
Também foram relatados uma série de problemas que ocorrem devido ao projeto de irrigação, tais como: ameaças por parte de fazendeiros e grileiros; o avanço das cercas dos grileiros em áreas usadas pelas comunidades; jagunços armados impedindo a livre circulação de pessoas e animais nas áreas de uso comum; e o desparecimento associado a roubos de animais nas áreas comuns; tudo isso como forma de pressionar os povos a deixarem de usar as terras para que as mesmas fiquem sob a posse dos fazendeiros grileiros.
Por fim, os povos atingidos reafirmaram a necessidade da CDA em fazer a ação discriminatória da área em conflito, pois eles dependem disso para sobreviver, e a solta dos animais é a principal fonte de renda.
Denúncia: rio São Francisco e o desperdício de água
Moradores de Boa Vista e Nova Boa Vista denunciaram o descaso com o Rio São Francisco. “Já não conseguimos mais tirar nosso sustento, o peixe está cada vez mais escasso e como se não bastasse, a CODEVASF retira grande volume de água do rio através do canal e sem finalidade alguma despeja na caatinga alagando tudo”, afirmou um morador que pediu para não ser identificado. Além disso foi relatado inúmeros pontos de vazamento e alagamento da caatinga provocados pelas rachaduras do canal.
Texto e fotos: Equipe CPT Bahia.


