CPT BAHIA

CPT Centro Norte realiza lançamento do Caderno de Conflitos no Campo 2024

A Comissão Pastoral da Terra Centro Norte, Diocese de Bonfim, realizou no último dia 13 de maio, no Auditório do campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF, em Senhor do Bonfim, o lançamento do Caderno de Conflitos no Campo, edição 2024, em pareceria com o colegiado de Geografia da UNIVASF. O evento ocorre anualmente, visando lançar o relatório sobre os conflitos no campo no Brasil. Esta parceria entre CPT e Colegiado de Geografia, data do ano de 2017, quando pela primeira vez fizeram o evento de lançamento do Caderno de Conflitos juntos e se transformou em um projeto de extensão que esse ano soma a nona edição do evento.

Este relatório, elaborado anualmente desde 1985 pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno, da CPT, sediado em Goiânia – GO, é uma importante fonte de dados sobre conflitos no campo brasileiro.

Esse ano, cerca de 150 pessoas participaram do evento. Contou com a presença de agentes da CPT, de integrantes dos movimentos sociais, do Grupo de Pesquisa Geografia, trabalho e ontologia do ser social: estudos sobre a essência da relação sociedade-natureza – GTOSS, do Núcleo de Estudos das Paisagens Semiáridas Tropicais – NEPST e da coordenação do Laboratório de Ensino de Geografia do colegiado de Geografia da UNIVASF, outras organizações.

Foram apresentados os dados dos conflitos e analisados os contextos da violência no campo em níveis nacional e estadual. O lançamento também contou com a presença e com depoimentos de integrantes do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) das comunidades de Fundo de Pasto, Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), representação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus Senhor do Bonfim e demais alunos de Geografia, História, Ciências da Natureza, Ecologia e Geologia.

O processo de acumulação de capital não consegue se realizar sem expropriação e violência. A realização desse modo de produção via colonização no Brasil, originou uma forma própria deste em nosso país, denominado por José Chasin de capitalismo de via colonial ou híper-tardia que se utilizou do trabalho escravo para seu desenvolvimento e para garantir o processo de realização da “assim chamada acumulação primitiva de capital” que continua a se realizar na atualidade. Esse movimento se expressa em todo território nacional e na particularidade baiana no movimento de expropriação e conflitos envolvendo atividades minerárias, garimpo, agronegócio, energia eólica, que para manter suas taxas de lucros avançam no processo de exploração da natureza e atingindo diretamente camponeses, moradores de Fundo de Pasto, comunidades quilombolas, pesqueiras, geraizeiras (Fundo e Fecho de Pasto), ou seja, comunidades que tem um modo de vida não pautados diretamente na relação capital-trabalho. Esse processo de expansão do capital que tem como principal mediador o Estado, vem causando vários conflitos, que são manifestos nos números do Caderno de Conflitos, assim como em algumas falas feitas na apresentação do mesmo.

Segundo o relatório de 2024, no estado baiano foram registrados um subtotal de 135 conflitos por terra que somados com mais 9 ocupações/retomadas, quantificam um total de 144 conflitos e com 10.683 famílias impactadas diretamente. Especificando, foram construídas 7 ocupações, com participação de 1.463 famílias sem terras, e 2 retomadas, protagonizadas por 51 famílias indígenas.

Durante o lançamento, o agente da CPT, Antônio Celio, apresentou os dados específicos relativos ao Brasil e à Bahia. Segundo Celio, os conflitos por água são um desafio para a luta, foram 22 ocorrências, quarta posição no país, com 3.646 famílias impactadas diretamente pela destruição e/ou poluição dos recursos hídricos, diminuição ou impedimento do acesso à água. As comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto e quilombolas são as mais impactadas por esse tipo de conflito. Destacou também o Movimento Invasão Zero, fundado na Bahia, formado por fazendeiro e proprietários de terras que vem fazendo despejos com a presença de familiares, ameaçando os trabalhadores e trabalhadoras onde no início do ano passado com a presença da polícia.

A soma de todos os conflitos na Bahia, envolvendo terra, água, trabalho, totalizaram o marco de 171 envolvendo 57.343 pessoas. Ao considerarmos recorte espacial do Território de Identidade do Piemonte Norte do Itapicuru, temos destaque para o município de Ponto Novo com 3 conflitos, 2 envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e 1 envolvendo o MPA e totalizando 270 famílias.

Além da exposição dos dados, o evento teve a composição de uma mesa que contou também com representantes de algumas comunidades afetadas pelos modelos de desenvolvimento implementados pelo capital, corporações multinacionais, empresários e grileiros, etc. Antes das falas tivemos uma abertura com uma poesia feita na mística sobre o aniversário dos 100 anos de vida de Elizabete Teixeira e seu esposo que deixou um legado pelo o fortalecimento do campesinato.

Dando início as reflexões da mesa, a representante do MPA, Eulália dos Santos Oliveira, destacou as lutas travadas pelo Movimento desde que ocuparam parte das terras do perímetro irrigado em Ponto Novo, sinalizou para os conflitos ocorridos no ano passado com a derrubada da casa de alguns moradores e ressaltou a grande importância de estarmos mobilizados, organizados e que o que nos resta é sempre lutar.

Logo após, tivemos as reflexões de Larrisa Soares, integrante do MAM e estudante de Ecologia da UNIVASF. Esta sinalizou os motivos que a levaram a militância, ressaltando que é integrante de comunidade de Fundo de Pasto. Sinalizou para reflexões críticas em torno das atividades de mineração na região e ressaltou a importância do MAM para se pensar uma outra forma de modelo mineral. Finalizou apontando para a necessidade e importância da organização das/dos atingidos pela mineração.

Finalizando tivemos a fala de Vilobaldo que trouxe todo um histórico dos 35 anos de lutas das comunidades do Mucambo, Lagoa Grande, Brejão da Grota e Angico, ligadas ao Fundo de Pasto. Ressaltou as várias manifestações do passado e lutas recentes e trabalhos de mapeamento das áreas de proteção e de nascentes de água. Trouxe denúncias sobre os impactos ambientais da mineração que estão causando nas nascentes e ressaltou a importância da juventude e da universidade participarem dessas lutas.

Ao termino destas falas foi aberto para intervenções do público participante, onde ressaltamos o importante relato durante e posteriormente ao evento da estudante do curso de Geografia Naara Melo ao afirmar que: “Esse evento foi um marco na minha vida. Não apenas como estudante, mas como ser humano. Estar ali, ouvindo e sentindo cada palavra dita, foi como levar um choque de realidade e, ao mesmo tempo, ser abraçada por uma força ancestral que pulsa neste país desde sempre: a força da luta coletiva. Foi lindo. Foi duro. Triste. Foi um soco e um colo ao mesmo tempo. Ver que a união comunitária e o cuidado entre os seus nascem de algo tão trivial: da urgência de existir — de permanecer, de viver com dignidade em sua própria terra — é algo que me atravessou de um jeito que eu nunca mais vou esquecer.

Os palestrantes não estavam ali apenas por si. Eles levantaram a voz por todo um povo, por memórias, por histórias, por direitos que insistem em ser negados. E fazem isso com coragem, mesmo sendo ameaçados, mesmo sabendo dos riscos. Isso é bravura. Amor em forma de luta.

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