Nos dias 31 de maio e 1º de junho, mulheres camponesas de comunidades tradicionais de Fundo de Pasto de Pilão Arcado e Campo Alegre de Lourdes, no semiárido baiano, participaram de um intercâmbio que reuniu cerca de 60 participantes. Proporcionando trocas de experiências e construção coletiva de saberes, o encontro conclui uma etapa do projeto da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Juazeiro com apoio da organização Manos Unidas.
Durante os dois dias, as participantes puderam conhecer de perto como as comunidades organizam suas produções, enfrentam desafios e constroem alternativas baseadas no trabalho coletivo, na organização comunitária e na luta por políticas públicas. A programação contou com visitas à Feira Agroecológica de Campo Alegre, à Cooperativa de Apicultores (COOAPICAL) do município e às experiências com hortas agroecológicas e galinheiros comunitários nas comunidades Lagoa do Arroz, Baixão dos Bois e Sítio Novo Pedrão.

Na visita à feira, as mulheres notaram a diversidade da produção agroecológica das comunidades e o empenho das/os feirantes em conquistar seus clientes, oferecendo alimentos de qualidade e a preços justos. O café da manhã também foi servido no local: pamonha, milho verde cozido, galinha caipira, beiju, sucos e cafezinho não faltaram para acolher as visitantes. Assim, as mulheres aproveitaram esse momento de muitas conversas e descobertas sobre o processo de comercialização da produção local.

Nos segundo momento o grupo visitou a cooperativa local de apicultores, onde pôde conhecer a estrutura física, as práticas de gestão e os caminhos para se tornarem futuras associadas. Também visitaram uma horta agroecológica já consolidada, observando as técnicas de cultivo adotadas, a divisão do trabalho coletivo e os canais de comercialização acessados pelos grupos locais.
No segundo dia, a visita foi à horta comunitária localizada em Campo Alegre, conduzida por um grupo misto de mulheres oriundas de diferentes comunidades vizinhas. Com apenas dois meses de implementação, a horta já apresenta bons resultados e inicia a colheita de seus primeiros alimentos, fruto da ação coletiva e da agroecologia como base de autonomia e segurança alimentar.
Para Lubia de Sousa Silva, da comunidade Tanque Velho (Pilão Arcado), o intercâmbio trouxe motivação e inspiração:
“Esse momento foi um exemplo para nós. Vimos como os grupos trabalham unidos e como as mulheres estão comprometidas, até tesoureira elas têm.”
Delma Ferreira França destacou o acolhimento e a força das mulheres locais:
“As mulheres que conhecemos fazem um trabalho muito bem organizado. Nos receberam com muito carinho e foi muito bom ver como elas estão firmes.”
As mulheres de Campo Alegre de Lourdes, que receberam as participantes em suas casas, reforçaram a importância da união:
“Assim como as formigas, precisamos estar juntas na caminhada pela garantia dos direitos das mulheres.”
Para Sueli de Sousa Ramos, que foi beneficiada com um galinheiro como parte das ações do projeto, essa conquista representa um passo importante na autonomia e fortalecimento do seu quintal produtivo:
“Isso fortaleceu meu trabalho. Cada dia aprendemos mais e seguimos firmes.”
Dona Liduvina Sousa resumiu o sentimento coletivo:
“Foi uma troca de bênçãos. As mulheres precisam entender que nosso lugar não é só na cozinha. É na luta, buscando nossos direitos. Ver outras mulheres nessa caminhada nos fortalece, nos faz sentir queridas. É muito bom saber que alguém vê o nosso trabalho e a nossa luta.”
O intercâmbio é resultado de um ciclo de atividades desenvolvido ao longo do último ano, com foco na geração de renda, na autonomia das mulheres e na agroecologia como ferramenta de resistência e transformação social. A atividade foi promovida pelo Projeto Autonomia Econômica e Social de Mulheres Camponesas, realizado pela CPT Juazeiro, com apoio da organização Manos Unidas, em parceria com o Fórum de Entidades de Campo Alegre de Lourdes, a Rede Mulher e o Serviço de Assessoria a Organizações Populares (SASOP).
De acordo com Priscila Machado, agente da CPT, esse processo só foi possível graças ao envolvimento de muitas mãos: “Colaboradoras e colaboradores voluntários de Pilão Arcado e Campo Alegre participaram ativamente na mobilização e articulação das mulheres, animando esse processo que nos dá sentido na caminhada. Vivenciar esta experiência foi transformador, tanto na percepção da realidade quanto no âmbito pessoal. Nosso próximo passo será sistematizar as experiências vividas neste último ano e tirar delas o aprendizado necessário para seguirmos na caminhada rumo ao fortalecimento do trabalho e da participação política das mulheres camponesas.”
Mulheres do Semiárido Cultivando Vidas
Ao final do intercâmbio, as mulheres retornaram para suas comunidades levando mudas de plantas, alimentos, receitas, aprendizados, experiências compartilhadas e muita motivação para seguir fortalecendo suas hortas, quintais produtivos e organizações locais.
O encontro reafirma que a construção de uma sociedade mais justa passa pela autonomia econômica das mulheres, pelo fortalecimento da agroecologia e pela união das comunidades do semiárido na luta pela garantia de direitos e pela soberania alimentar.







Fotos: Railson Duarte
Texto: CPT Juazeiro


