Nolia Oliveira – Militante – CETA
No último 8 de março de 2026, mulheres camponesas, quilombolas e representantes de movimentos sociais da região da Chapada Diamantina e Piemonte do Paraguaçu se reuniram em Itaberaba (BA), no Centro Zumbi dos Palmares, para celebrar o Dia Internacional da Mulher.
Mais do que uma comemoração, o encontro foi um momento de reflexão, memória, espiritualidade, cultura e organização da luta das mulheres, reafirmando que a luta das mulheres acontece todos os dias do ano, como afirma Aída do Setor de Gênero do MST, “dia 8 de março poderia ser um dia como qualquer outro, mas não. Foi o dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. Mas o dia da mulher não é todos os dias? Ontem pude sentir a amplitude deste e de outros 365 dias que tem no ano, onde tudo acontece e não podemos deixar de falar.”
O encontro foi organizado com a participação de mulheres do CETA, da CPT, do MST, de comunidades quilombolas, associações e assentamentos da região, reunindo companheiras de diferentes municípios que compartilham desafios, conquistas e sonhos em comum.
Também participaram do evento representantes dos assentamentos Zacarias e Lafayete de Marcionílio Souza, do Quilombo Flores, com presença da companheira Aída, representante do MST de Ruy Barbosa, da Associação de Mulheres Maria Felipa de Itaberaba e dos Assentamentos Nova Vida e Piabas de Lajedinho.

Memória das mulheres que marcaram a luta
Durante o encontro, também houve um momento de memória e homenagem às mulheres lutadoras que já partiram, mas deixaram uma grande história de resistência nas comunidades. Foram lembradas companheiras como Laurita, Marta dos Anjos, Marilene Matos e tantas outras mulheres que dedicaram suas vidas à luta pelos direitos das mulheres, pela terra, pela dignidade e pela organização das comunidades.
A memória dessas mulheres reforçou um sentimento compartilhado por todas:
a luta continua através das que permanecem organizadas.
Mística: terra, vida, luta e solidariedade
As mulheres dos assentamentos Zacarias e Lafayete apresentaram a mística intitulada “Mulheres Camponesas: Terra, Vida, Luta e Solidariedade.” A mística trouxe símbolos da vida no campo, da resistência das mulheres e da importância da solidariedade entre os povos, lembrando que as mulheres camponesas são guardiãs da terra, da produção de alimentos e da vida nas comunidades.
Esse momento fortaleceu a espiritualidade e a identidade coletiva das mulheres presentes.
Oficinas debatem temas importantes para os dias atuais
Um dos momentos mais importantes do encontro foram as oficinas de formação e debate realizadas com as participantes.
A primeira oficina abordou o tema violência contra as mulheres, um problema que infelizmente tem se tornado cada vez mais grave no Brasil. A atividade contou com a colaboração das companheiras da Associação de Mulheres Maria Felipa, de Itaberaba, que apresentaram dados atualizados sobre os casos de violência.
Durante o debate, foram discutidos vários tipos de violência que afetam as mulheres: a violência física, a violência psicológica, a violência moral e a violência patrimonial.
As participantes refletiram sobre como essas violências estão ligadas a uma sociedade ainda marcada pelo patriarcado, que mesmo com avanços nas leis e políticas públicas, continua reproduzindo desigualdades e opressões contra as mulheres.
O espaço foi também de escuta, acolhimento e fortalecimento da solidariedade entre as mulheres, reforçando a importância da organização coletiva para enfrentar essas violências.
A segunda oficina tratou de um tema que também está muito presente na vida das comunidades: as mudanças climáticas. O debate foi conduzido pela companheira Deorgia Tayane (UEFS/PPGM E UNEB), que refletiu com as mulheres sobre os impactos ambientais que afetam diretamente o modo de vida no campo. Entre os principais problemas debatidos estiveram o desmatamento, a poluição das águas, a expulsão das comunidades de seus territórios, o avanço da monocultura e o uso intensivo de agrotóxicos.
Esses processos ameaçam diretamente a produção agroecológica, que é uma das principais formas de produção praticadas pelas mulheres nas comunidades.
As participantes reforçaram que cuidar da terra é também defender a vida, e que as mulheres têm um papel fundamental na construção de uma agricultura mais justa, saudável e sustentável.
Encerramento com música, dança e esperança
O encontro foi encerrado por volta das 16 horas, em um momento de celebração e confraternização entre as participantes.
Houve muita música de axé, dança, cantoria e místicas de encerramento, animadas pelas mulheres do Quilombo Flores e pelas companheiras dos movimentos sociais de luta pela terra e pelos direitos das mulheres.
Mais do que um evento, o encontro deixou um sentimento coletivo de força, união e esperança.
As mulheres retornaram para suas comunidades com a missão de compartilhar os debates, fortalecer as companheiras que não puderam estar presentes e seguir organizando a luta.
Porque, como reafirmaram durante todo o encontro: A luta das mulheres não acontece apenas no dia 8 de março. Ela acontece todos os dias, na roça, na comunidade, na organização e na defesa da vida.



