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No dia 20 de novembro, as comunidades quilombolas de Caetité têm muito a reivindicar

As 14 comunidades quilombolas de Caetité, por intermédio do Conselho Quilombola e parceiros, realizaram a XVI Festa das Comunidades Quilombolas de Caetité, na comunidade de Cangalha.

O encontro, como já se notabilizou, reuniu centenas de moradores das comunidades, incentivou e desenvolveu atividades artísticas e culturais, tendo como protagonistas as comunidades quilombolas, com muita festa, mística e celebração.

Neste ano, além da celebração, o encontro foi também um espaço de reivindicação.

Segundo Zé Carlos, as comunidades estão há muito tempo abandonadas pelo poder público, que não se dispõe a dialogar e resolver os problemas relacionados às políticas públicas envolvendo titulação, emprego, estradas e condições dignas de vida para o povo.

Cidinha, da comunidade de Cangalha, destacou que o poder público precisa atender às demandas de saúde e educação, pois nenhuma comunidade sobrevive sem saúde. Ela pediu atenção e respeito às comunidades quilombolas, e que sejam ouvidas em suas necessidades.

A coordenação do encontro fez a leitura do Manifesto Político do 20 de Novembro das comunidades quilombolas, que destaca as emergências do povo e as omissões dos governos federal, estadual e municipal. São situações que exigem urgência e respostas efetivas, para que o 20 de novembro seja um tempo de celebração das conquistas, da titulação das terras e da implementação de políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento soberano, popular e livre dos povos quilombolas.

MANIFESTO POLÍTICO DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DE CAETITÉ – 20 DE NOVEMBRO

Conselho Quilombola de Caetité
20 de Novembro de 2025

Senhores(as),

O Conselho Quilombola de Caetité, em nome das 14 comunidades quilombolas certificadas do município, vem, por meio deste, apresentar e protocolar o Manifesto Político do Dia da Consciência Negra – 20 de Novembro, acompanhado de uma pauta estruturante de reivindicações relativas aos direitos territoriais, sociais, econômicos, culturais e ambientais de nossas comunidades.

As demandas aqui expostas já foram formalmente apresentadas à atual gestão municipal desde 2022, porém permanecem sem avanços concretos. A continuidade da invisibilização das pautas quilombolas aprofunda desigualdades históricas e caracteriza violação direta a direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988, pelo Decreto 4.887/2003, pela Convenção 169 da OIT, bem como por demais legislações correlatas.

Mais um 20 de Novembro se apresenta e, ainda assim, nossas comunidades seguem sem acesso pleno a direitos constitucionais básicos — tais como terra, educação, saúde, cultura, lazer e condições dignas de vida.

Reafirmamos que não aceitaremos discursos vazios, promessas não cumpridas ou ações desalinhadas com a realidade concreta dos territórios quilombolas. Repudiamos as omissões, desresponsabilizarão e desrespeito mais recente praticado contra o conselho quilombola. Exigimos respeito, participação social efetiva e comprometimento real com as questões que impactam diretamente nossas vidas.

Assim, reapresentamos a pauta entregue à gestão municipal desde 2022, exigindo encaminhamento estrutural e ações imediatas que garantam direitos e políticas públicas para nossas comunidades.

EIXOS ESTRATÉGICOS PARA A GARANTIA DOS DIREITOS QUILOMBOLAS

1. Titulação das Terras e Demarcação

  • Apoio para avanço nos processos de titulação das terras quilombolas.

  • Realização de estudos técnicos com participação direta das comunidades.

  • Criação de um Fundo Municipal de apoio à regularização fundiária.

2. Infraestrutura e Serviços Básicos

  • Ampliação do acesso à água potável, energia elétrica, saneamento básico e coleta de lixo.

  • Construção e manutenção de estradas, pontes e vias de acesso.

  • Implementação de programas de habitação adequados às especificidades culturais quilombolas.

3. Educação e Cultura

  • Educação qualificada, que valorize a história, identidade e cultura quilombola.

  • Formação continuada de professores, gestores e contratação de profissionais dos territórios tradicionais para atuação em comunidades quilombolas.

  • Fomento à produção cultural, artística e tradicional.

4. Saúde

  • Atenção integral à saúde, com equipes multidisciplinares permanentes.

  • Inclusão e valorização das práticas tradicionais de cuidado.

  • Construção, ampliação e qualificação de unidades de saúde.

5. Produção e Economia

  • Apoio à agricultura familiar e ao extrativismo sustentável.

  • Acesso ao crédito, assistência técnica e programas de fomento.

  • Incentivo ao turismo comunitário sustentável.

6. Participação e Gestão Democrática

  • Participação efetiva das comunidades na elaboração e gestão das políticas públicas.

  • Qualificação e fortalecimento dos conselhos municipais.

  • Fortalecimento institucional das organizações e lideranças quilombolas.

AÇÕES ESTRUTURANTES NECESSÁRIAS

  • Realização de diagnóstico participativo das comunidades quilombolas.

  • Construção de plano de ação com metas, indicadores e prazos definidos.

  • Destinação de orçamento específico e contínuo.

  • Estabelecimento de parcerias com governos federal, estadual, sociedade civil e demais órgãos.

  • Implementação de sistema contínuo de monitoramento e avaliação

PRINCÍPIOS PARA A EFETIVA GARANTIA DOS DIREITOS

  • Consulta Prévia, Livre e Informada (Convenção 169 – OIT).

  • Políticas intersetoriais, envolvendo todas as secretarias municipais.

  • Ações sustentáveis, ambiental, social e economicamente.

  • Fortalecimento da autonomia, do protagonismo e da capacidade de autogestão das comunidades quilombolas.

GERÊNCIA MUNICIPAL PARA COMUNIDADES TRADICIONAIS

Reivindicamos a criação de uma Gerência Exclusiva para Comunidades Tradicionais no âmbito da Secretaria de Desenvolvimento ou órgão correlato, com as seguintes atribuições:

  • Articulação de programas federais e estaduais destinados às comunidades quilombolas.

  • Construção de marcos legais, programas e políticas públicas permanentes.

  • Atuação como ponte institucional entre o município e os territórios tradicionais.

Finalizamos este documento manifestando nossa disposição plena ao diálogo e à cooperação. No entanto, esperamos posicionamento político efetivo e a abertura de um canal permanente de diálogo, capaz de fortalecer a democracia local e garantir autonomia, protagonismo e dignidade aos povos quilombolas, por meio do atendimento concreto das reivindicações aqui apresentadas.

Conselho Quilombola de Caetité
20 de Novembro de 2025


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