
Este não tem sido um ano comum, por mais que desgraças cívicas historicamente sempre acontecem em nosso país… Um ano de desmonte da incipiente democracia política e social que a duras penas vínhamos construindo ao longo do século XX, em especial desde a superação da Ditadura Civil-Militar de 1964. Por isso, dedicamo-nos a uma mais demorada análise de conjuntura, assessorada pelo economista e professor da UFBA, Nelson de Oliveira, antigo diretor e colaborador do CEAS (e da CPT-BA). O Centro de Estudos e Ação Social, dos jesuítas – à frente o saudoso Pe. Claudio Perani, um dos criadores da CPT –, completa 50 anos em 2017 e é parceiro da CPT desde a primeira hora.
Talvez seja mesmo este o pior momento da história do Brasil – como várias vezes se disse durante a reunião do Conselho. Nos
Tal acontece no Brasil atual, desde as manobras para apear do Governo Federal a coalizão liderada pelo PT, que deixou de ser funcional à acumulação do capital global em crise de reprodução ampliada sob domínio dos setores rentistas. Numa trágica reprodução da história, a Casa-Grande não cede um milímetro do seu poderio e a Senzala nunca pode deixar completamente de sê-lo. Ao golpe do impedimento da presidenta Dilma segue-se a sequência de golpes patrocinados pelo ilegítimo, temerário e desavergonhado governo Temer contra os direitos da maioria que trabalha e produz a riqueza deste país. Tais golpes sustentados pelo conluio entre os Três Poderes e a Mídia empresarial, dão provas de que pouco ou nada mudamos e ainda muito longe estamos de ser uma nação soberana, plural e igualitária. Esta, a dor maior! Que clama por muito mais luta ainda!

A avalanche de desmonte de direitos afeta radicalmente os trabalhadores do campo e da cidade e os pobres em geral. No campo, com a aniquilação da reforma agrária, das políticas dedicadas à agricultura familiar e camponesa e aos povos e comunidades tradicionais e da previdência social rural, será um desastre de proporções e consequências incalculáveis. Os efeitos já se fazem sentir, no aumento da violência contra os trabalhadores/as do campo no Brasil e na Bahia. Os indígenas como vítimas preferenciais, tal como no despejo dos Pataxó de Coroa Vermelha há um mês. Além da tradicional impunidade, pesam hoje ainda mais a omissão e conivência do Estado, ainda mais repressivo e violento contra os movimentos sociais.
Na Bahia, a flexibilização da legislação ambiental facilita irresponsáveis licenças ambientais e outorgas de água, destacadamente na região Oeste, em vias de aniquilar a metade que resta do Cerrado, “caixa d’água” do Brasil, do Rio São Francisco e de milhões de baianos. O Plano de Desenvolvimento Agropecuário do MATOPIBA é sua sentença de morte. A lei estadual que regulamenta os territórios de Fundos e Fechos de Pasto e Quilombolas, ao reduzi-los ao controle do Estado através de Concessão Real de Uso, revela indisfarçável a submissão do governo aos ditames de empresas mineradoras, eólicas e do agronegócio. Ainda bem que o movimento social que os representa e cresceu em número de comunidades resolveu não aceitar esta figura jurídica impositiva e restritiva de direitos territoriais secularmente afirmados. É o que se espera e está sendo construído também pelas comunidades camponesas e aliados que resistem ao aumento da grilagem de terras e a empreendimentos como a FIOL – Ferrovia de Integração Oeste-Leste, o Porto Sul, o Projeto Baixio de Irecê, a mineração em várias regiões, os parques eólicos, as barragens para hidroeletricidade e irrigação, as transposições do Rio São Francisco, inclusive o tal Eixo Sul para a Bahia etc. Projetos de morte, que não valem o emprego e renda que dizem trazer!

Como sinais de esperança vemos na CPT, e em outras entidades parceiras também, a retomada do trabalho de base, de formação e informação, a mobilização e os intercâmbios entre comunidades, povos e experiências de luta, como construção do projeto de sociedade que queremos. Para nós, são sinais que apontam para o Reinado de Deus, desde que Jesus tornou-se um de nós, na alegria de viver e lutar, na morte e na ressurreição.
Constatamos felizes que aumenta a consciência ambiental nas comunidades, com destaque para a defesa dos territórios de uso 
Definimos como prioridades para 2017:acompanhamento e apoio às lutas em defesa e conquista da terra e dos territórios e da água; trabalho de base e formação, em especial, formação política. Contamos com nossas Igrejas nos apoiando, no rastro do Papa Francisco. Na parceria e nas alianças estratégicas, havemos de superar este trágico momento. É Advento e Emanuel – Deus-Conosco – vem a tudo ressignificar e plenificar, como na gruta de Belém descobriram os pobres camponeses-pastores, e nós com eles.
Caetité, 09 de dezembro de 2016.
Conselho Regional da CPT – Bahia.


