Enquanto a ACP Bioenergia, uma das maiores empresas agrícolas do país, anuncia com entusiasmo sua chegada ao sertão baiano, uma outra realidade, silenciada e invisibilizada, se desenrola no território do Baixio do Irecê, entre os municípios de Xique-Xique e Itaguaçu da Bahia. Por trás das promessas de “revitalização do solo”, irrigação em larga escala e produção de grãos e algodão, 19 comunidades tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto e o bioma Caatinga enfrentam uma escalada de conflitos socioambientais, desmatamento acelerado e desequilíbrio ecológico.
A empresa, que firmou parceria com a Germina Baixio (do grupo Equipav e que obteve concessão da Codevasf) para ocupar 15 mil hectares irrigados, apresenta o projeto como símbolo de modernização agrícola. Entretanto, ressoa para as comunidades atingidas como mais uma tentativa de salvar este empreendimento que é um fiasco e que apresenta diversas irregularidades como aponta Ação Civil Pública que tramita na Justiça Federal.
Desmatamento em larga escala e desequilíbrio ambiental
A Caatinga, que até pouco tempo cobria toda a área do Baixio, vem sendo rapidamente substituída por extensas clareiras e pivôs centrais. A promessa de “alta produtividade” contrasta com a realidade do campo: ao trafegar pela região, é visível que boa parte dos empreendimentos permanece com áreas desmatadas e sem cultivo efetivo. O cenário é de grandes extensões nuas, onde antes havia uma vegetação nativa única, que abriga uma rica biodiversidade adaptada ao semiárido, como afirma um morador de uma das comunidades atingidas.
“quantas empresas tem chegado aqui para irrigar neste projeto e vão embora, desde que roubaram nossas terras na década de 1970 que é desse jeito. O quanto de dinheiro já gastaram? Este projeto é maldito, porque ameaça nosso modo de vida e a vida do rio São Francisco”.
Esse avanço desordenado tem provocado um grave desequilíbrio ambiental. O desmatamento e a supressão de hábitats naturais estão forçando animais silvestres, como onças, a se aproximarem das comunidades tradicionais. Sem território e alimento, esses animais passam a atacar criações locais, um reflexo direto da ruptura dos ecossistemas. Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto, que vivem há gerações nesse território, relatam aumento dos conflitos, insegurança e perda de modos de vida tradicionais.
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As comunidades de Fundo e Fecho de Pasto de Xique-Xique e Itaguaçu são guardiãs de práticas ancestrais de uso coletivo da terra, fundamentais para a manutenção do equilíbrio socioambiental do sertão. Essas populações têm sofrido pressões crescentes com a instalação dos grandes projetos irrigados. Além da perda de território e de recursos naturais, enfrentam a criminalização de suas práticas tradicionais e a imposição de um modelo agrícola voltado exclusivamente para o agronegócio exportador, alheio às dinâmicas locais e à sustentabilidade do semiárido.
A importância estratégica da Caatinga para o clima global
Paralelamente à destruição acelerada, estudos recentes têm evidenciado a relevância da Caatinga no enfrentamento da crise climática. Uma pesquisa pioneira do Observatório da Dinâmica de Carbono e Água na Caatinga mostrou que o bioma atua como um poderoso sumidouro de carbono, sequestrando grandes quantidades de CO2 mesmo em condições adversas de seca. Utilizando o método de Eddy Covariance, os cientistas comprovaram que a eficiência de uso de carbono (CUE) da Caatinga é superior à de outros ecossistemas tropicais, inclusive à Amazônia, quando se considera sua capacidade de converter carbono em biomassa.
Esses resultados revelam que a Caatinga, longe de ser um “vazio agrícola” como frequentemente é retratada por grandes empreendimentos, é um ativo ambiental estratégico para o Brasil e o planeta. Desmatá-la para instalar monocultivos irrigados significa comprometer não apenas a biodiversidade local, mas também uma das frentes mais promissoras de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
Modelo de expansão questionável
Desde 2014, a ACP Bioenergia vem expandindo seu território de atuação, instalando um novo polo agrícola por ano. A chegada ao Baixio representa sua primeira incursão em larga escala no bioma Caatinga, e, o modelo adotado não traz novidades: irrigação intensiva, monocultura de grãos e algodão voltada à exportação e correção química de solos, desconsiderando a dinâmica ecológica local.
Ao contrário do discurso de “progresso” difundido por veículos ligados ao agronegócio, essa expansão levanta questões profundas: progresso para quem? À custa de quê? O desenvolvimento não pode ser medido apenas pela quantidade de hectares plantados ou pela receita bilionária de empresas. É preciso considerar os impactos ambientais, sociais e culturais que ficam invisíveis nos comunicados corporativos. Existem comunidades no entrono? Esses povos serão atingidos de alguma forma? Alguma das propagandas evidencia a voz do povo?
A Caatinga não é terra a ser “amansada”. É um bioma vivo, complexo e essencial para o equilíbrio climático e a sobrevivência de comunidades tradicionais que há séculos cuidam desse território. A ocupação de 15 mil hectares por grandes empreendimentos agrícolas, sem transparência, diálogo real e respeito ao meio ambiente, representa mais um capítulo da velha história de apropriação de terras e recursos naturais em nome de um “desenvolvimento” que beneficia poucos e ameaça muitos.


