Equipe Diocesana de Organização das Comemorações do Centenário
Dom José Rodrigues foi a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa. Quando tomou posse como bispo de Juazeiro da Bahia, em 16 de fevereiro de 1975, vindo da Congregação Redentorista / Vice-Provícia de Brasília, estava acontecendo a construção da barragem de Sobradinho, com a relocação de quatro cidades, totalizando cerca de 72 mil pessoas, das quais 58 mil camponeses. Então, num contexto de Ditadura Civil-Militar, assumiu a causa dos relocados, proibidos de ter organização política e sindical, exceto os Sindicatos de Trabalhadores Rurais controlados pela Ditadura através do Ministério do Trabalho.
Com um diminuto e aguerrido grupo de padres e religiosos e religiosas, incentivou as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e a formação de lideranças comunitárias, criou seu grupo de apoio com agentes pastorais leigos e leigas, e essa Igreja conheceu o que é a sinodalidade na prática. Nesse “caminhar juntos”, apoiou a criação de inúmeras pastorais sociais como a da Terra, da Mulher Marginalizada, da Saúde, dos Pescadores, a Carcerária e tantas outras conforme as necessidades das comunidades. Foi criador e presidente da CPT Regional NE 3 e presidiu o Conselho Nacional dos Pescadores. Era chamado para eventos no Brasil e na Europa, quando divulgava suas e nossas lutas e suas profundas inspirações. Atraiu o educador Paulo Freire recém-chegado do exílio, que por dois anos assessorou a atuação dos agentes pastorais e lideranças populares da diocese.
Durante 27 anos sua voz reverberou pelo Vale do São Francisco nas homílias, nos escritos, nos programas de rádio, na presença pessoal junto às comunidades. Sua voz se fez ouvir por toda a Região Semiárida, pelo Brasil e pelo mundo. Seu programa “Semeando a Verdade” era o mais ouvido da Emissora Rural da vizinha Petrolina – PE. Foi aclamado “Bispo dos Excluídos”. Desde o começo, se opôs à Ditadura e enfrentou altivamente as consequências de sua opção, como a invasão de sua casa e empastelamento de seus alentados arquivos, a pixação da catedral e outras igrejas da diocese e ameaças de morte.
Debruçou-se sobre os problemas crônicos do Nordeste, isto é, a miséria social de milhões de diocesanos e nordestinos que morriam pela fome e pela sede, situação registrada na música e na literatura do Nordeste. Foi um dos pioneiros no apoio à construção do Paradigma da Convivência com o Semiárido, criando o “Projeto Adote uma Cisterna” e, posteriormente, todo trabalho desenvolvido pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA). A diocese foi pioneira na construção de cisternas de água de chuva, em regime de colaboração entre as famílias com apoio necessário da diocese. Hoje mais de um milhão de cisternas de consumo humano já foram construídas, transformando a paisagem o Semiárido e cerca de 250 mil iniciativas tecnológicas populares de produção foram espalhadas por toda a região.
Certamente ele gostaria de ver que acabaram os saques, as migrações intensas, a fome e a sede catastróficas, a mortalidade infantil que caiu para os padrões internacionais da ONU, a elevação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de toda a região, que ainda é pobre, mas superou os indicadores da miséria absoluta.
Ainda mais, Dom Rodrigues ficou marcado por gestos pessoais proféticos, como o de se oferecer para ser refém no lugar de um gerente de banco que havia sido sequestrado. A proposta foi aceita pelos sequestradores e ele ficou vários dias sob o poder deles, até ser libertado. Posteriormente, os visitou na prisão e celebrou o casamento de um dos seus sequestradores e ajudou sua família.
Mediador comunicativo, idealizou um jornal religioso e popular, o “Caminhar Juntos” a fomentar um discurso político e educativo com o objetivo de denunciar injustiças sociais e difundir a solidariedade. Dizia: “Não basta andar lado a lado. Caminhar é ser para, é estar em disponibilidade. Exige comunicação, conhecimento daquele que caminha junto, entreajuda, solidariedade”.
Ao celebrar a eucaristia de sua despedida, disse: “Nunca traí os pobres, nem mesmo em tempos de eleição”. E partiu de volta para Trindade – GO, à mão uma pequena maleta, tal como havia chegado 28 anos atrás.
Por isso tudo e muito mais que não cabe nesse texto, ao celebrarmos 100 anos de seu nascimento, celebramos sua memória, seu Evangelho encarnado, que tantos frutos ainda produz por onde andou e viveu.
Dom José Rodrigues vive!


