Disputa pela hegemonia mundial intensifica conflitos, pressões econômicas e ameaças à soberania dos países
O cenário internacional é marcado por uma ofensiva cada vez mais agressiva do imperialismo diante da ascensão da China, do fortalecimento das resistências populares e da presença de governos que buscam algum grau de autonomia política e econômica. Esse movimento ocorre em um período de declínio prolongado da hegemonia dos Estados Unidos, que passam a utilizar diferentes instrumentos para conter o avanço chinês e impedir a consolidação de uma ordem mundial multipolar.
Essa ofensiva não se restringe ao campo econômico. Trata-se de uma estratégia global que articula poder militar, pressão política, coerção econômica e uma política reacionária de massas. Sob lideranças de caráter fascista, os Estados Unidos reafirmam seu papel de “xerife do mundo”, buscando impor seus interesses por meio da força e aprofundando um cenário internacional marcado por instabilidade, conflitos e guerras.
A tendência é de um período prolongado de turbulências globais. Sem apresentar alternativas estruturais para superar sua própria crise, o imperialismo intensifica os conflitos como forma de preservar sua posição de poder e garantir sua sobrevivência enquanto força hegemônica. Apesar da ofensiva, a China, em aliança estratégica com a Rússia, tem conseguido sustentar posições defensivas em nível regional e ampliar sua capacidade de diálogo no cenário internacional. Esse movimento está apoiado, sobretudo, no avanço tecnológico chinês e na crescente influência econômica do país, permitindo a disputa de novos espaços na geopolítica mundial. Soma-se a esse processo a recente atuação da Rússia no conflito da Ucrânia, em uma operação que rompeu com o monopólio da guerra exercido pelas potências ocidentais, ao responder à ofensiva da OTAN – a aliança militar e política da América do Norte e Europa – com o objetivo expansionista e de cerco a Rússia
Resistência dos povos e reconfiguração dos conflitos internacionais
O aprofundamento da disputa entre grandes potências tem impulsionado, simultaneamente, processos de resistência popular em diferentes regiões do mundo. Países africanos vêm protagonizando novas lutas anticoloniais, enquanto, no Oriente Médio, permanecem conflitos marcados pela resistência dos povos, mesmo diante de uma profunda desigualdade na correlação de forças.
A resistência palestina, mesmo diante de um cenário de genocídio, mantém-se como uma expressão concreta da luta contra o domínio imperialista. Da mesma forma, a resistência iraniana ganhou centralidade no cenário internacional, demonstrando capacidade de enfrentamento após a ofensiva de Israel, inclusive com ações que atingiram bases militares e colocaram em evidência limites dos sistemas de defesa israelenses e estadunidenses.
Esses processos revelam que a ofensiva imperialista não ocorre sem contradições. A ação dos povos e os rearranjos geopolíticos em curso impõem limites à tentativa de controle absoluto por parte das potências dominantes.
América Latina sob pressão: a atualização da Doutrina Monroe
A América Latina volta ao centro da estratégia dos Estados Unidos, em uma atualização da chamada Doutrina Monroe. No contexto da disputa global por hegemonia, os EUA ampliam sua política de controle sobre o continente, intensificando a ofensiva contra processos de autodeterminação e soberania dos povos latino-americanos.
Essa intervenção se manifesta por meio de instrumentos econômicos, políticos e militares tendo como objetivo garantir o controle sobre riquezas naturais estratégicas, especialmente recursos energéticos. Trata-se de uma reconfiguração da dependência regional, agora diretamente vinculada à disputa geopolítica mundial.
Nesse contexto, ganha destaque o sequestro e a prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, ocorrido em 3 de janeiro de 2026, durante uma invasão militar dos Estados Unidos que incluiu bombardeios em Caracas. O episódio evidencia o grau de radicalização das formas de intervenção e demonstra os limites que o imperialismo estaria disposto a ultrapassar diante de governos que confrontam seus interesses.
Paralelamente, intensifica-se o cerco contra Cuba, buscando desestabilizar e isolar uma das principais experiências históricas de independência política na região. Esse conjunto de ações revela uma estratégia mais agressiva de recomposição da hegemonia norte-americana sobre a América Latina, aprofundando tensões e desafios para a soberania dos povos.
Os impactos da ofensiva imperialista sobre os povos
A conjuntura aponta para um período de aprofundamento das guerras e da violência, atingindo especialmente mulheres, jovens e idosos, como demonstram os conflitos envolvendo a Palestina e o Irã, tendo como principal articulador e apoiador dessas ofensivas os Estados Unidos, em aliança com Israel.
No continente latino-americano, observa-se uma nova ofensiva imperialista marcada pelo apoio a forças e organizações de Extrema Direita que buscam se reorganizar, ampliar sua influência política e disputar o controle dos governos da região. Essa movimentação ocorre em um contexto de aprofundamento das disputas geopolíticas por recursos estratégicos e pela redefinição do papel da América Latina na economia mundial.
A atual estratégia de intervenção norte-americana se apresenta sob o discurso do combate ao narcotráfico. Assim como, nos anos 2000, a chamada “guerra ao terror” serviu de justificativa para intervenções associadas ao controle do petróleo e de territórios estratégicos, hoje o discurso da “guerra às drogas” é utilizado para legitimar a disputa por minerais, petróleo e outros bens naturais. O racismo estrutura e sustenta essa ofensiva, ao criminalizar povos e territórios historicamente explorados. No centro dessa estratégia está o objetivo de garantir o controle sobre riquezas naturais — especialmente terra, minérios, água e petróleo —, além de ampliar processos de privatização, enfraquecer a soberania dos povos e aprofundar a retirada de direitos da classe trabalhadora.
No caso dos governos que resistem a essa ofensiva, amplia-se o risco de intervenções diretas do imperialismo em articulação com setores da burguesia local e das forças armadas.
Além da pressão política e militar, o imperialismo utiliza seu poder econômico por meio de “tarifaços”, a aplicação de tarifas e restrições comerciais sobre produtos importados, provocando impactos nas economias periféricas. Essas medidas podem gerar escassez de produtos básicos, crises econômicas, inflação, fechamento de empresas, desemprego e aumento do custo de vida para a classe trabalhadora.
Esse cenário tensiona e fragiliza as estruturas democráticas, abrindo espaço para governos autoritários que buscam implementar modelos econômicos contrários aos interesses soberanos dos povos. A consequência é a transformação desses territórios em áreas submetidas à exploração de suas riquezas naturais e à superexploração da força de trabalho. Diante desse quadro, os desafios colocados para os povos são ampliar a resistência, fortalecer a organização popular e defender projetos de soberania capazes de enfrentar a ofensiva imperialista e construir alternativas baseadas na luta e interesses das classes populares.
José Beniezio Eduardo de Carvalho da Silva – Beni



