CPT BAHIA

Bem Viver e descolonização marcam o encerramento da 8ª turma do Liderar

Durante os dias 22 e 23 de outubro, representantes da 8ª turma do Curso de Formação de Lideranças Populares (Liderar) estiveram reunidos no Centro Diocesano de Pastoral, em Senhor do Bonfim (BA), para a última etapa da formação, que teve como temas o Bem Viver e a descolonização. O encontro contou com a assessoria de Cláudio Dourado, da Comissão Pastoral da Terra (CPT-BA).

Durante as atividades, Dourado abordou as dimensões do ser, do saber e do poder, fundamentais para a compreensão do Bem Viver e para o questionamento da concepção eurocêntrica de “viver melhor”, associada à acumulação e ao consumo. A reflexão também contemplou uma análise crítica dos impactos históricos e contemporâneos da colonialidade sobre as instituições e o meio ambiente.

A partir dessas discussões, os participantes foram convidados a observar suas próprias vivências, expressões culturais, relações comunitárias e vínculos com a natureza, além de refletir sobre as formas de organização, os conflitos e os impactos provocados pelo modelo de desenvolvimento dominante.

A discussão também evidenciou como a lógica capitalista, em seu processo histórico, produz injustiças e desigualdades extremas, estabelecendo relações de dependência e subalternização de culturas a partir de uma perspectiva ocidental.

Durante o debate, os participantes compartilharam reflexões sobre as contribuições do Liderar para o reconhecimento de suas identidades e a valorização dos saberes ancestrais. As falas destacaram a importância da afirmação das raízes vinculadas aos territórios, muitas vezes sufocadas pelo preconceito, pela discriminação e pelo racismo, em decorrência de processos históricos de dominação cultural e apagamento da história dos povos.

Para Alan Vitor dos Santos, da comunidade do Caldeirão do Mulato, município de Antônio Gonçalves (BA), o Bem Viver está diretamente relacionado à dignidade, à solidariedade e à construção coletiva.

“O Bem Viver significa viver com dignidade, respeito, união e harmonia com a natureza e com as pessoas. Nas nossas comunidades, ele se fortalece por meio da solidariedade, da valorização dos saberes tradicionais e da participação coletiva. Nesse contexto, o Liderar é fundamental, pois contribui para formar pessoas comprometidas com a transformação social, capazes de ouvir, dialogar e buscar soluções para os desafios das comunidades”, afirmou.

Alan também ressaltou que liderar significa caminhar junto e fortalecer a coletividade. “Precisamos entender que liderar não é apenas estar à frente, mas caminhar junto, fortalecendo a coletividade e construindo oportunidades para todos. Porque não existe Bem Viver sem união, participação e compromisso com o bem coletivo”.

Ao concluir sua reflexão, deixou uma mensagem sobre solidariedade e compromisso com a vida: “Diante do sofrimento humano, não podemos permitir que a indiferença fale mais alto que a nossa consciência. Que a dor de quem sofre nos desperte para a solidariedade, a justiça e o respeito à vida”.

Juliana Santana de Souza, da comunidade de Algodões, município de Filadélfia (BA), também destacou os aprendizados e os vínculos construídos ao longo da formação. Para ela, a última etapa foi marcada pela mistura de sentimentos diante do encerramento de uma caminhada coletiva.

“Essa última etapa foi marcada por uma mistura de sentimentos. Ao mesmo tempo em que estávamos felizes por tudo o que construímos, também vinha aquela tristeza de saber que nossa caminhada estava chegando ao fim. Foram tantos momentos de aprendizado, convivência, troca de experiências e construção de amizades que é impossível não sentir saudade antes mesmo de terminar”, relatou.

Sobre o tema trabalhado no encontro, Juliana destacou a oportunidade de reunir os aprendizados das etapas anteriores, especialmente em relação ao cuidado com a vida, a natureza, as pessoas e os territórios.

“Foi um tema que nos fez refletir não apenas sobre a sociedade que queremos construir, mas também sobre a maneira como vivemos e nos relacionamos com o próximo”, afirmou.

Ao recordar sua trajetória na formação, Juliana ressaltou as transformações pessoais e coletivas proporcionadas pelo curso e a responsabilidade de atuar como liderança popular.

“Hoje, tenho ainda mais consciência de que ser uma liderança popular é uma responsabilidade muito grande. É entender que nossas conquistas não acontecem de forma individual, que precisamos uns dos outros e que a transformação da nossa realidade começa quando nos organizamos e lutamos coletivamente”, destacou.

Promovido pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Bonfim desde 2003, o Curso de Formação de Lideranças Populares (Liderar) é uma iniciativa de educação popular voltada para jovens, camponeses, quilombolas e militantes de movimentos sociais da região.

A formação é organizada em turmas e etapas presenciais, distribuídas em oito módulos que abordam temas como espiritualidade e mística à luz da Teologia da Libertação, direitos humanos, organização popular, identidade camponesa, questão agrária e políticas públicas para o campo.

Como símbolo do compromisso assumido ao longo da caminhada formativa, cada participante recebeu um anel de tucum, que representa o compromisso com a transformação social e com a construção do Bem Viver a partir da perspectiva dos mais pobres.

O encerramento também contou com a socialização dos trabalhos desenvolvidos pelos participantes. Entre as produções apresentadas, esteve um vídeo construído pelo grupo de trabalho “Dandara dos Palmares”, você pode acessar no Instagram da CPT.

Registro: CPT – Diocese de Bonfim, Centro-Norte da Bahia.

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