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O terceiro Governo Lula e as eleições de 2026: limites, desafios e a disputa pelos rumos do Brasil

Cenário interno é marcado pela fragilidade das forças populares, avanço da Extrema Direita e disputa estratégica pela direção política do país

No plano interno, predomina uma conjuntura reacionária, marcada pelo enfraquecimento estratégico das forças populares e pela desorganização política acumulada nos últimos anos. Esse cenário é resultado, em grande medida, da derrota estratégica sofrida com o golpe de 2016 – o impedimento da Presidenta Dilma com base em falsas acusações –, que interrompeu um ciclo político e impôs novos limites à capacidade de atuação das forças progressistas.

A estratégia centrada prioritariamente na disputa eleitoral demonstrou seus limites. Embora tenha possibilitado o retorno do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República, a atual correlação de forças impõe fortes restrições à capacidade do governo de promover mudanças estruturais.

A sustentação do governo por meio da chamada Frente Ampla expressa contradições importantes. Ao mesmo tempo em que foi fundamental para a vitória eleitoral e para a retomada de políticas públicas interrompidas nos últimos anos, não desenvolveu nesse processo uma frente popular com força social e política suficiente para impulsionar transformações profundas.

No campo, essa contradição se evidencia na ausência de avanços qualitativos na reforma agrária, na regularização fundiária e na demarcação de terras, apesar da recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e da retomada de investimentos em políticas voltadas à agricultura familiar e aos povos e comunidades tradicionais. Para milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais, permanece o desafio histórico do acesso à terra, da produção de alimentos, da garantia de renda e da permanência em seus territórios.

Como consequência, o governo atua sob permanente pressão, buscando conciliar interesses contraditórios e sem romper de forma mais profunda com a estrutura neoliberal fortalecida nos últimos anos, marcada pela concentração fundiária, pelo poder do agronegócio e pela influência dos setores econômicos dominantes.

Outro elemento central é o fortalecimento do Congresso Nacional, ampliado pelo volume expressivo de recursos sob controle parlamentar, especialmente por meio das emendas e mecanismos que ampliaram o poder do Legislativo sobre o orçamento público. Esse cenário fortaleceu setores conservadores organizados, como as bancadas ligadas ao agronegócio, à segurança pública e a grupos religiosos, reduzindo a capacidade de iniciativa do Executivo.

Extrema Direita, redes sociais e reorganização conservadora

Mesmo após a contenção institucional das iniciativas golpistas, especialmente depois dos atos de 8 de janeiro, a Extrema Direita permanece como a principal força de oposição no país. Apesar das disputas internas e das denúncias envolvendo setores ligados ao bolsonarismo, esse campo mantém capacidade de reorganização política e mobilização social.

Sua força está sustentada por uma base parlamentar organizada, influência nas redes sociais, presença em setores das forças de segurança e articulação com segmentos religiosos e lideranças conservadoras nas periferias urbanas e comunidades rurais.

Esse conjunto de fatores mantém a Extrema Direita como um ator central na disputa nacional, apresentando-se como principal força de enfrentamento eleitoral ao projeto representado pelo governo Lula.

Baixa mobilização popular e disputa ideológica

Apesar de iniciativas pontuais de mobilização popular em defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e de pautas como a redução da jornada de trabalho, permanece um cenário de baixa capacidade de organização e mobilização das massas.

A ausência de uma disputa ideológica mais consistente por parte do governo e das forças progressistas favorece o avanço de narrativas conservadoras, especialmente em um ambiente marcado pelo impacto das redes sociais e pela atuação de setores neopentecostais vinculados a lideranças associadas à Extrema Direita.

Esses espaços possuem grande capacidade de formação de opinião e mobilização, influenciando a interpretação da realidade social e política e, muitas vezes, direcionando insatisfações legítimas da população para posições conservadoras. Esse processo ocorre justamente em territórios onde permanecem problemas concretos como precarização do trabalho, falta de serviços públicos, violência e ausência de políticas estruturantes.

Eleições de 2026 sob pressão e disputa pela soberania nacional

Diante desse cenário, as eleições de 2026 assumem caráter estratégico na disputa pelos rumos políticos, econômicos e sociais do Brasil. A posição do país no cenário internacional, sua dimensão territorial, seus bens da natureza e seu peso econômico na América Latina ampliam as disputas geopolíticas em torno de seu futuro.

Nesse contexto, cresce a pressão de interesses externos, especialmente dos Estados Unidos, em razão da importância estratégica do Brasil na disputa por bens da natureza como água, energia, minérios e petróleo.

A utilização de pautas relacionadas à segurança pública como instrumento de pressão internacional também representa um fator de preocupação. A classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas pelo governo norte-americano abre espaço para discursos que podem ampliar possibilidades de ingerência externa e questionamentos à soberania nacional.

A disputa eleitoral ocorrerá em um ambiente marcado pela polarização política, influência das redes sociais e possibilidade de aumento dos conflitos. Apesar de indicadores econômicos mais favoráveis em comparação aos últimos anos, permanece uma insatisfação popular relacionada às dificuldades de enfrentar problemas estruturais que afetam diretamente a vida da população, como emprego, segurança, renda, acesso à terra, moradia e serviços públicos, como saúde e educação.

Sem avanços na politização da sociedade, na organização popular e na implementação de políticas capazes de alterar estruturas históricas de desigualdade, o país pode enfrentar um novo ciclo de derrotas políticas e aprofundamento da instabilidade.

Brasil como território estratégico na disputa internacional

O Brasil ocupa uma posição estratégica no cenário mundial devido ao seu potencial energético, hídrico, mineral e ambiental. Essa condição transforma o país em alvo de disputas internacionais pelo controle de bens considerados fundamentais para a economia global.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta contradições internas profundas: avanço de forças reacionárias, dependência de setores da burguesia nacional em relação a interesses externos, influência conservadora em instituições e uma situação defensiva das organizações populares.

A fragilidade da mobilização social amplia os desafios para construir um projeto nacional baseado na soberania, na distribuição de riqueza e na defesa dos territórios.

Um cenário de confronto prolongado

O processo eleitoral de 2026 ocorrerá em meio a uma disputa política de grande intensidade. O resultado terá impactos diretos sobre a democracia, os direitos sociais, as políticas públicas e a posição do Brasil no cenário internacional.

Uma eventual vitória das forças de Extrema Direita poderá representar uma nova etapa de aprofundamento das políticas neoliberais, com maior pressão sobre direitos trabalhistas e sociais, avanço das privatizações e ampliação da exploração dos bens da natureza.

Entre os riscos estão novas ofensivas contra políticas públicas estratégicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), reformas que penalizem trabalhadores e trabalhadoras, especialmente do campo, e maior pressão sobre territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

Diante desse cenário, torna-se fundamental fortalecer forças políticas e sociais comprometidas com os interesses populares, ampliar a organização da classe trabalhadora e reconstruir a capacidade de mobilização social.

A disputa eleitoral de 2026 é estratégica, sendo fundamental a derrota da Extrema Direita e seus aliados internos e externos, mas ela não se encerra nas urnas. O principal desafio permanece sendo a retomada do trabalho de base, articulando formação política, organização popular e fortalecimento das lutas concretas por direitos.

Esse movimento é essencial para reconstruir a capacidade de mobilização popular e sustentar, no médio e longo prazo, um projeto de soberania e desenvolvimento nacional comprometido com transformações econômicas, políticas, sociais e ecológicas.

José Beniezio Eduardo de Carvalho da Silva – Beni

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