CPT BAHIA

Sementes, saberes e resistência: MMUC realiza 22º Encontro Anual e 6ª Feira de Troca de Sementes Crioulas.

Atividade reuniu agricultoras, famílias, comunidades rurais e estudantes em Santa Maria da Vitória, no Oeste da Bahia, para fortalecer a organização das mulheres, a ancestralidade camponesa e a soberania alimentar.

Durante dois dias, sementes, saberes e histórias circularam em Santa Maria da Vitória. Nos dias 7 e 8 de outubro, o Movimento de Mulheres Unidas na Caminhada (MMUC) realizou o 22º Encontro Anual do movimento e a 6ª Feira e Troca de Sementes Crioulas, na sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR). A programação reuniu agricultoras, famílias, comunidades rurais e estudantes em momentos de formação, partilha de experiências, atividades culturais e troca de sementes e mudas.

O encontro reafirmou a importância da organização das mulheres camponesas, da valorização dos conhecimentos tradicionais e da preservação das sementes crioulas como parte da luta pela soberania e segurança alimentar e nutricional.

O primeiro dia foi dedicado à formação e ao diálogo entre as participantes. A programação começou com um momento de mística e espiritualidade, seguido de apresentações e de integração.

Na sequência, as Assistentes Sociais Amanda Alves e Rayza Dourado conduziram a discussão “No campo e em casa: relações de respeito, igualdade e sem violência”. O debate abordou o processo histórico de colonização do Brasil e suas relações com a construção das desigualdades de gênero, além de discutir conceitos como patriarcado, machismo, feminismo e diferentes formas de violência contra as mulheres.

O momento foi marcado pela participação ativa das mulheres, que compartilharam reflexões e experiências sobre os desafios enfrentados no cotidiano, tanto no ambiente familiar quanto nos territórios onde vivem e trabalham. A atividade também destacou a importância da construção de relações baseadas no respeito, na igualdade e na prevenção das violências.

Ancestralidade camponesa e políticas públicas para as sementes

No período da tarde, o professor Cícero Félix, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), apresentou a palestra “Sementes que geram vidas: ancestralidade, memória e vida camponesa”. A atividade convidou as participantes a refletirem sobre a relação entre sementes, memória e identidade, valorizando os conhecimentos ancestrais que atravessam gerações nas comunidades camponesas da Bacia do Rio Corrente.

Em seguida, Jandira Lopes, representante da Associação Comunitária da Escola Família Agrícola Rural de Correntina e Arredores (ACEFARCA), abordou as políticas públicas voltadas à garantia de acesso às sementes e à preservação desse patrimônio coletivo.

Durante sua participação, Jandira apresentou iniciativas desenvolvidas pela ACEFARCA na região e informou que está prevista a implantação de casas de sementes nos municípios de Cocos, Coribe, Tabocas e Santa Maria da Vitória, além da execução de ações relacionadas ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Sementes.

A discussão evidenciou que a preservação das sementes crioulas vai além da conservação de variedades agrícolas, envolve a memória dos povos e comunidades tradicionais, a autonomia das famílias agricultoras e a continuidade dos modos de vida camponeses. Nesse contexto, fortalecer o acesso às sementes significa também defender a soberania alimentar e o direito dos povos de produzir e preservar seus próprios alimentos.

A noite foi marcada pela arte, pelos cantos e pelas histórias, ampliando os espaços de convivência e intercâmbio entre as participantes e a comunidade. A programação cultural contou com a presença de estudantes do curso técnico em Nutrição do Centro Territorial de Educação Profissional (CETEP) Bacia do Rio Corrente. Estudantes da UFOB também participaram das atividades.

A presença da juventude e de instituições de ensino contribuiu para aproximar diferentes gerações e reforçar a importância da circulação dos conhecimentos tradicionais e da valorização da cultura camponesa.

Feira fortalece a conservação das sementes crioulas

No dia 8 de outubro, a 6ª Feira e Troca de Sementes Crioulas reuniu mulheres, famílias e comunidades em torno da partilha de sementes, da oferta de mudas e do intercâmbio de experiências e conhecimentos. Mais do que uma atividade de troca, a feira representa um espaço de fortalecimento dos vínculos comunitários e de valorização do trabalho das agricultoras. Ao guardar, cultivar e compartilhar sementes crioulas, as famílias contribuem para manter viva uma herança construída ao longo de gerações e fortalecer formas de produção vinculadas à autonomia e soberania camponesa.

A realização do 22º Encontro Anual e da 6ª Feira e Troca de Sementes Crioulas reafirma o papel do MMUC na organização das mulheres e na defesa da vida, dos territórios e dos conhecimentos tradicionais. Em cada semente compartilhada, permanecem histórias, práticas e saberes fundamentais para a construção de um futuro com mais diversidade, dignidade e soberania alimentar.

A programação contou com a parceria do projeto Cultura, Alimento e Identidade –CNPq|UFOB, Comissão Pastoral da Terra -CPT Bahia, Associação Comunitária da Escola Família Agrícola Rural de Correntina e Arredores (ACEFARCA) e Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR).

Amanda Alves, comunicadora socioambiental | CPT Centro-Oeste/BA.

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