A 6ª Turma do Curso de Formação de Lideranças Populares (Liderar) realizou neste fim de semana, 3, 4 e 5, em Canudos (BA), a 4ª etapa do curso com a temática Questão Agrária, terra e território. O evento contou com a colaboração de Edite Diniz do Grupo de Pesquisa Geografar da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maicon Leopodino do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), Adelson Reis Kaimbé e Sandorval Carvalho de Macedo.
Para aprofundar as discussões, os/as participantes assistiram o documentário “Paixão e Guerra no Sertão de Canudos” de Antônio Olavo, que conta a história do massacre e fizeram uma visita de campo ao Parque Estadual de Canudos, lugar onde podem ser encontrados ainda hoje, diversos elementos do período da guerra, desde pequenos objetos, às ruinas da Velha Canudos, a réplica da cruz da igreja e trincheiras utilizadas pelos Conselheiristas no embate com os soldados.
Para Edite Diniz, do Geografar, a história de Canudos foi protagonizada por populações expropriadas da terra, pobres, favelados, escravizados, indígenas que se juntaram pela realização de um ideal de terra livre. “Canudos aponta a continuidade das lutas, com muita resistência dos povos, desde as primeiras invasões das terras brasileiras pelos europeus, que interessados em nossas riquezas, utilizaram-se sempre da violência para expropriar os nossos territórios, contando com a manipulação dos meios de comunicação, com a parcialidade do judiciário que continua a condenar sem precedentes os lutadores e as lutadoras do povo, e com o Estado cujo lado sempre foi o da propriedade privada”, relatou.
Diante deste contexto, Adelson Kaimbé, destacou a importância de não perder a ideia de que a luta é integrada e que a resistência é a única alternativa. “Somos provocados a todo momento pensar o que nosso espirito exige, nosso povo é grito”, disse.
Os/as liderandos/as apresentaram as realidades de suas comunidades de fundo de pasto e quilombolas, Assentamentos da Reforma Agrário e comunidades de pequenos agricultores(as), que assim como todos os territórios, são marcadas por conflitos envolvendo empresas mineradoras, eólicas, fazendeiros; conflitos por água, motivados pela negação da posse da terra, grilagens e pelo latifúndio.
A estrutura agrária das cidades de Mirangaba, Capim Grosso, Jacobina, Serrolândia, Pindobaçu, Várzea Nova, Ourolândia, entre outras da região, é um retrato da estrutura agrária do Brasil, com profunda desigualdade e elevado índice de concentração de terras, a exemplo de Mirangaba, onde apenas 5% dos estabelecimentos, ocupam cerca de 50% da área total do município, segundo o Banco de Dados do Geografar, com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2006.
Durante os três dias de formação, a questão indígena também foi apresentada de forma significativa, e isso mexeu com os/as participantes que se sentiram provocados a repensar sobre suas próprias origens. Além de Canudos, os/as liderandos/as fizeram uma visita à aldeia do povo Kaimbé, localizada em Euclides da Cunha (BA), foi um dos momentos mais significativos do curso.
Diante de uma árvore centenária, o pau ferro, no centro sagrado da aldeia, Adelson contou um pouco da história de luta do povo Kaimbé, cuja população residente naquele território é de cerca de 1.400 pessoas. Ele também destacou os assassinatos de parentes, o embate com fazendeiros e as dificuldades relacionadas ao Estado que não resolve a questão das terras indígenas no Brasil. Adelson nos levou também ao lugar conhecido como Ilha, lugar de natureza exuberante, onde se podem ouvir os encantados.
Para os/as participantes, esse foi um momento de vivência da espiritualidade e de profunda emoção, como contou Claudiana Pereira, moradora da comunidade Itapicuru, de Jacobina. “Fiquei lembrando da minha avó, o lugar onde ela morava era assim, tinha água limpa e farta, podíamos tomar banho, beber, pescar, mas agora nem podemos entrar porque a mineradora Yamana Gold destruiu tudo”, contou.
Já para Alijanes de Souza Pereira, do Assentamento Nova Canaã, em Pindobaçu, essas são histórias que todo o povo brasileiro deveria conhecer. “Ouvindo essas histórias, meu coração apertou. Queria ter trazido minha filha”, relatou.
Segundo Janecleide de Jesus Silva, o intercâmbio realizado contribuiu para entender a questão da terra e a questão indígena, e a romper preconceitos de que índio usa tanga e só anda pintado. “Eu entendi o que o meu avô dizia que foi pego a dente de cachorro. Me vi nessa história. Ontem pensei: se meu avô tinha sangue indígena, então eu também sou indígena, meus filhos são indígenas, nós somos indígenas”, concluiu.
Maria Aparecida de Jesus Silva/ CPT Bahia Centro Norte – Diocese de Bonfim