No dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, atingidos e atingidas do Oeste da Bahia, organizados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ocuparam as ruas dos municípios de São Félix do Coribe e Santa Maria da Vitória em defesa do Cerrado em pé, das águas, dos rios e da vida.
O ato público, seguido por um seminário e uma noite cultural, reuniu trabalhadores e trabalhadoras do campo, comunidades tradicionais, organizações parceiras e apoiadores. A mobilização reafirmou a importância da proteção dos territórios diante do avanço de empreendimentos que ameaçam os modos de vida das populações locais e os bens naturais que sustentam a vida no Cerrado.
Sobre a ponte do Rio Corrente, um dos principais cursos d’água da região e receptor das águas de diversos afluentes do território, foi realizada uma denúncia pública sobre a morte das águas e seus impactos sobre as comunidades tradicionais. Agricultores familiares, geraizeiros, ribeirinhos, comunidades de fundo e fecho de pasto e demais populações rurais têm enfrentado dificuldades crescentes diante da redução da disponibilidade hídrica, comprometendo a produção de alimentos, a criação de animais e a reprodução de seus modos de vida.

Durante a caminhada também foram apresentados dados do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), elaborado pelo MapBiomas e divulgado em 27 de maio de 2026. O relatório apresenta um panorama abrangente do desmatamento em todos os biomas brasileiros entre 2019 e 2025, com foco no ano mais recente.
Segundo o levantamento, a Bahia foi o terceiro estado brasileiro com maior área desmatada em 2025. No período, foram registrados 110.616 hectares de vegetação nativa suprimidos no estado, em 2024 estava em quinto, apesar da redução de 16,9% em relação a 2024. Mais de 624 mil ha desmatados na Bahia nos últimos sete anos foram autorizados, 57% do total desmatado no estado.
Entre os municípios baianos com maiores áreas desmatadas em 2025 destacam-se Jaborandi (14.487 ha), São Desidério (11.170 ha), Cocos (8.159 ha), Formosa do Rio Preto (7.434 ha), Barreiras (6.188 ha), Baianópolis (6.066 ha) e Correntina (5.343 ha). Também figuram entre os municípios com maiores áreas desmatadas Riachão das Neves (4.000 ha), Santa Rita de Cássia (3.600 ha) e Cristópolis (3.000 ha).
Ranking dos municípios baianos com maior área desmatada em 2025
- Jaborandi – 14.487 ha
- São Desidério – 11.170 ha
- Cocos – 8.159 ha
- Formosa do Rio Preto – 7.434 ha
- Barreiras – 6.188 ha
- Baianópolis – 6.066 ha
- Correntina – 5.343 ha
- Riachão das Neves – 4.000 ha
- Santa Rita de Cássia – 3.600 ha
- Cristópolis – 3.000 ha
Os dados do RAD 2025 também revelam a forte presença de municípios do Oeste baiano entre os maiores desmatadores do país.
Jaborandi ocupou a 7ª posição no ranking nacional dos municípios com maior área desmatada em 2025, com 14.487 hectares. São Desidério aparece na 10ª posição, com 11.170 hectares, Cocos na 13ª posição, com 8.159 hectares, e Correntina na 28ª posição, com 5.343 hectares desmatados. Embora os dados de 2025 evidenciem a gravidade do cenário atual, esses municípios não aparecem pela primeira vez entre os maiores desmatadores do país. Ao longo dos últimos anos, os municípios do Oeste baiano têm se revezado entre as primeiras posições dos rankings nacionais de desmatamento.
Pelo terceiro ano consecutivo, o Cerrado manteve-se como o bioma com a maior área desmatada do país. Apesar da redução de 16,9% em relação ao período anterior, o bioma respondeu por 55% de toda a área desmatada no Brasil em 2025, totalizando 540.614 hectares, quase o dobro da área desmatada na Amazônia no mesmo período.
Para dimensionar essa realidade, os 110.616 hectares desmatados na Bahia equivalem a aproximadamente 155 mil gramados do Estádio do Maracanã. Organizações sociais, comunidades tradicionais e pesquisadores vêm alertando para a relação entre o avanço do desmatamento, a expansão da fronteira agrícola e o agravamento da crise hídrica na região
Esse cenário está diretamente relacionado à inserção desses municípios na região do MATOPIBA, fronteira agrícola que abrange áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Formada majoritariamente por áreas de Cerrado, a região passou por um intenso processo de expansão da agricultura empresarial a partir da segunda metade da década de 1980, tornando-se uma das principais fronteiras de expansão do agronegócio no país, marcada pela conversão de extensas áreas de vegetação nativa para monoculturas e pecuária em larga escala.
É importante destacar que boa parte das áreas de Cerrado ainda preservadas nesses municípios coincide com territórios tradicionalmente ocupados e manejados por comunidades de Fundo e Fecho de Pasto e por comunidades Geraizeiras. São esses povos e comunidades tradicionais que, historicamente, têm garantido a conservação da biodiversidade, das nascentes, dos rios e dos demais bens comuns do Cerrado.
Ao longo das últimas décadas, o avanço da fronteira agrícola sobre a região tem sido acompanhado por conflitos fundiários e socioambientais, envolvendo processos de grilagem de terras, disputas pelo acesso à água e pressões sobre os territórios tradicionais. Mais recentemente, organizações sociais e comunidades têm denunciado a chamada “grilagem verde”, prática pela qual áreas conservadas e tradicionalmente ocupadas por comunidades são utilizadas para fins de compensação ambiental ou constituição de reservas legais vinculadas a empreendimentos privados, sem o devido reconhecimento dos direitos territoriais dessas populações.
Diante desse contexto, as comunidades tradicionais aguardam avanços mais efetivos do Estado da Bahia nos processos de regularização fundiária. Nos últimos anos foram instauradas ações discriminatórias em parte da região, fortalecendo a expectativa de que os territórios tradicionalmente ocupados e conservados por Geraizeiros e comunidades de Fundo e Fecho de Pasto sejam finalmente reconhecidos e destinados, garantindo segurança jurídica, proteção territorial e o reconhecimento do papel histórico de seus guardiões e guardiãs na conservação do Cerrado.

A escassez hídrica que assola a região é consequência direta do avanço do desmatamento e da degradação ambiental. Um estudo participativo de mapeamento realizado entre 2023 e 2024 nas sub-bacias hidrográficas dos rios Corrente e Carinhanha identificou 3.050 trechos de cursos d’água secos, incluindo córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios, totalizando cerca de 7.120 quilômetros de extensão de águas mortas. Diversas comunidades tradicionais já perderam fontes de abastecimento de água, enquanto riachos, lagoas, regos, nascentes e pequenos cursos d’água vêm desaparecendo ao longo dos últimos anos.
O levantamento contemplou as sub-bacias dos rios Guará, do Meio, Santo Antônio, Correntina, Arrojado e Formoso, além das sub-bacias do rio Carinhanha, incluindo os rios Riacho do Meio e Itaguari. Somados, os trechos mapeados alcançam uma distância equivalente à que separa o Brasil do México.
Em 2026, os níveis dos rios já preocupam moradores da região desde o mês de junho, período em que historicamente os cursos d’água apresentavam maior volume. A expectativa é de agravamento da situação durante os meses mais secos do ano, quando diversos rios passam a operar em condições críticas.
A programação do Movimento dos Atingidos pro Barragens contou ainda com um seminário que debateu os impactos da expansão dos megaprojetos de energia, do avanço do agronegócio e das crescentes pressões sobre os territórios tradicionais. O encontro também promoveu reflexões sobre a conjuntura política e os desafios colocados para as eleições de 2026.

Para os participantes da mesa de debate, o processo eleitoral representa uma oportunidade para fortalecer a representação política comprometida com os direitos da classe trabalhadora, a justiça ambiental, a proteção das águas e a defesa dos territórios.
A mobilização reafirmou que a soberania popular é fundamental para garantir a preservação dos bens comuns, assegurando água, território e dignidade para os povos do Cerrado. Seguimos firmes na luta por justiça ambiental, soberania dos territórios e águas para a vida.
Amanda Alves – comunicação socioambiental e popular. Fonte dos dados: Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025) – MapBiomas.



