CPT BAHIA

O Poder Profundo (Deep Power) e as eleições!

Roberto Malvezzi (Gogó)

Neste tipo de sociedade capitalista que vivemos é importante prestar atenção no período eleitoral. Ainda mais porque setores nazifascistas estão se aproveitando das eleições democráticas para se elegerem, e depois usam dessa conquista para impor seu poder ditatorial sobre a sociedade. Basta lembrar a tentativa de golpe logo depois que Lula foi eleito para seu terceiro mandato.

Então, prestemos atenção no “Sistema Democrático”. Mas, o que é este Sistema? Quem é o Sistema?

Nós vivemos no Sistema Democrático Capitalista – sim, em letra maiúscula, um nome próprio. O poder realmente dominante neste Sistema, o Deep Power, o Poder Profundo, é um tanto invisível. São os donos da propriedade e do dinheiro, elegem seus candidatos, embora nem sempre eles mesmos precisem estar presentes no Parlamento, no Governo ou no Judiciário.

A nata do Sistema é o poder financeiro (bancos, fundos de pensão, fintechs etc.), empresários dos setores industrial, minerário, comerciário, energético, tecnológico, agronegócio, créditos de carbono, que atuam em várias destas frentes, vinculados a grandes grupos transnacionais. Eles financiam e elegem seus deputados, senadores, governadores e presidente da República. No Congresso Nacional, dos 594 parlamentares, 273 são empresários e 160 fazendeiros. Juntos, representam 72% do Congresso. A esmagadora maioria deles situada em partidos de Direita ou de Centro (Centrão), empoderados pelas emendas do “orçamento secreto”.

Além dos Três Poderes constituídos, o Sistema tem seus outros braços. O principal é o poder militar e policial, que detém o monopólio legal da violência, isto é, só esses entes do Estado tem o direito de usar de violência contra as pessoas, para “manter a ordem”. Nós sabemos que a violência é utilizada, sobretudo, contra os/as pobres, os/as pretos/as, os/as indígenas, os movimentos sociais, sindicalistas, ambientalistas etc. Basta dizer que no Brasil 6.519 pessoas foram mortas pelo poder policial em 2025. Este poder funciona como instrumento da classe dominante, embora nem sempre um policial ou um soldado tenham consciência do que eles realmente defendem. Por isso, quando falamos do Sistema Capitalista, não estamos falando da bondade ou da maldade das pessoas, mas de um tipo de organização da sociedade que beneficia uma minoria, explora a maioria e joga muita gente na miséria, os descartados, sobrantes.

O Sistema tem ainda seus “aparelhos ideológicos”, aqueles que propagam e defendem as ideias do Sistema na sociedade, mascarando a realidade tal como ela é de fato. São considerados aparelhos ideológicos do Sistema os Meios de Comunicação, como as TVs, rádios, portais da Internet e redes sociais, igrejas e muitas vezes a própria escola. Hoje há o domínio das big techs que controlam as redes de informações no mundo. Claro que há muitas contradições, por isso esse apetite descomunal da direita para controlar as universidades, as escolas públicas e todo esse apoio às Igrejas de cunho neopentecostal que defendem a Teologia da Prosperidade e a Teologia do Domínio, pelas quais incentivam o sucesso individualista e excludente, em nome de Deus.

E hoje temos a Inteligência Artificial, que o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis chama de “NINA” (“Nem Inteligente, Nem Artificial”), que produz mentiras e falsas narrativas (fake News) como se fossem a verdade, com seus datacenters e algoritmos, que chegam a nós a todos os instantes através da Internet, das redes “sociais” e sites de busca.

Porém, acontece que nem sempre o povo se deixa levar pelos poderosos nas eleições e a consciência popular acaba por eleger um presidente da República que também pensa nos trabalhadores e nos mais empobrecidos.

Um jesuíta pedagogo da década de 70 e 80, na Bahia, Cláudio Perani, nos dizia: “o povo não é besta, tem a sua própria leitura da realidade” [não estaria perturbada pelo dito acima sobre as fakes News etc.?]. É o caso das eleições de Lula para três mandatos e Dilma para dois, o segundo interrompido pelo impeachment / golpe de 2016. Só que não basta eleger o presidente, é preciso eleger deputados, senadores, governadores que pensem e ajam pelo bem do povo, comprometidos com a luta popular.

Precisamos considerar ainda que existem as organizações populares que fazem a resistência, elaboram propostas, interferem nas políticas públicas em defesa do povo. Sempre há também uma parcela de parlamentares, de governadores, de prefeitos, de vereadores, de mídia alternativa, setores de igrejas, das universidades, de militantes que propõem e lutam por outro tipo de sociedade – sem classes, verdadeiramente democrática. Hoje temos, inclusive, os povos originários e tradicionais cobrando seus direitos e falando em resgatar o “socialismo ancestral”. É por aqui que se criam e defendem políticas públicas de interesse do povo e que beneficiam relativamente a população explorada ou descartada do Sistema Capitalista.

Então, uma das formas de reduzir o poder do Sistema é aproveitar bem o voto. Votar em quem, pelo menos, pensa nos trabalhadores/as, nos empobrecidos/as, nos descartados/as, naqueles/as que para o Sistema são apenas mão de obra barata ou um lixo a ser eliminado.

Hoje, além das questões sociais, precisamos pensar de forma socioambiental, isto é, pensar no povo oprimido e na reciprocidade e cuidado com a natureza. Aqueles que só destroem, usam, mas não cuidam, não podem receber nosso voto.

Por outro lado, eleição nunca muda o Sistema, mas pode agir dentro dele, diminuindo injustiças através das “políticas públicas”, acumulando forças para uma transformação mais estrutural. Elas existem exatamente para diminuir, ou amenizar, as injustiças da sociedade, direcionando investimentos e iniciativas que favoreçam aqueles que foram postos de fora ou às margens do Sistema. Só não podemos nos contentar e nos limitar a isso, deixando de buscar a transformação radical do Sistema, para que não se produzam mais exploração e injustiças.

Então, o voto não resolve tudo, mas pode ajudar a melhorar a vida de quem sustenta o Sistema com seu trabalho, mas que pouco se beneficia dele. Além do mais, é menos ruim uma democracia que não resolve tudo, do que uma ditadura que não resolve nada e nos distancia ainda mais de um outo sistema, justo e igualitário.

Você pode até errar seu voto, seu voto pode até ser traído por quem você confiou e elegeu, mas os donos do Sistema Democrático Capitalista jamais votam contra os seus próprios interesses. Então, nas eleições desse ano, tenha consciência de classe e vote, de deputado a presidente, em favor de si mesmo e do povo que mais precisa e luta por uma novo Sistema, uma Nova Sociedade. 

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