Evento em Tremedal (BA) debate a auto-organização feminina, a participação política e o enfrentamento às desigualdades estruturais como caminhos para a construção de um mundo mais justo.
“Mulher é semente na terra.” Através da mística reveladora do caminho de libertação, o 4º Encontro de Mulheres do Vicariato Rainha dos Mártires trouxe a auto-organização das mulheres e a participação política em todas as esferas como instrumentos fundamentais e possíveis para construir um mundo novo de justiça, direitos e plenitude.
O encontro, realizado em parceria com a Comissão Pastoral da Terra e a Cáritas Diocesana de Caetité, contou com a participação e assessoria de Camila Mudrek, do Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae e constituiu um importante espaço de formação, espiritualidade, convivência, escuta e fortalecimento da organização feminina.
O encontro possibilitou compreender que os desafios enfrentados pelas mulheres não são apenas individuais, mas estão profundamente relacionados a estruturas sociais, culturais, políticas e econômicas.
O momento bíblico foi inspirado na Parábola do Semeador, presente no Evangelho de Marcos, estabelecendo uma relação entre a semente lançada na terra e os sonhos, compromissos e lutas assumidos pelas mulheres.
A mística ajudou a relacionar fé, esperança, compromisso e ação, mostrando que a espiritualidade deve alimentar a caminhada das mulheres na comunidade e na sociedade. A espiritualidade foi compreendida como uma força que impulsiona as mulheres para a organização, a solidariedade e a defesa da justiça.




Vivemos em uma sociedade historicamente machista, misógina e patriarcal. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública revelam que o Brasil registrou 848 casos de feminicídio entre janeiro e julho de 2026. No mercado de trabalho, o cenário também é desfavorável: de acordo com cálculos baseados nas taxas da Pnad Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a taxa de desemprego feminino no período foi 39,1% superior à masculina. Além disso, o processo de racialização na sociedade brasileira, fundamentado historicamente na escravidão, agrava drasticamente esse panorama quando observado sob a perspectiva das mulheres negras. Assim, a luta das mulheres, em toda a sua diversidade, reafirma-se como uma busca fundamental pelo direito à vida, saúde, trabalho, educação e dignidade.
A partir da educação popular, da fé e da organização coletiva, as participantes foram convidadas a reconhecer sua força, valorizar sua história e assumir o compromisso de continuar construindo espaços de participação e transformação.
A imagem da semente de esperança permaneceu como símbolo do encontro: cada mulher é chamada a plantar, cuidar e multiplicar sementes de justiça, democracia, solidariedade, fé, organização e esperança.
Durante o processo formativo, compreendeu-se que através da auto-organização e do trabalho contínuo nos territórios, há condições para enfrentar as estruturas que oprimem por meio da divisão e da exploração de classe, gênero e raça. A partir das experiências históricas das mulheres, fica evidente que a organização feminina é um sinal de vida neste tempo de escuridão e medo. Por meio da fé e do engajamento comunitário, constrói-se um novo modo de viver, compreendendo que a caminhada rumo à “terra sem males” já edifica novos futuros possíveis.
Como síntese do encontro, permanece o compromisso de caminhar juntas, fortalecer as bases, reencantar a política e construir uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna, um espaço onde todas as mulheres tenham seus direitos respeitados e possam participar efetivamente das decisões que impactam suas vidas e a sociedade.
Tremedal – BA, 22 de agosto de 2026.



