Atividades de mapeamento participativo, visitas a nascentes e cursos d’água e encontros comunitários evidenciaram as transformações nas águas da região. A programação antecede a Romaria do Cerrado, marcada para 14 de novembro, em Serra Dourada.
Entre os dias 9 e 11 de setembro de 2026, a 8ª Semana do Cerrado mobilizou equipes de missionários e moradores de comunidades dos municípios de Serra Dourada e Santana, no Oeste da Bahia. A programação incluiu oficinas de mapeamento participativo, visitas a nascentes, riachos, lagoas e outras fontes de água, além de reuniões e momentos de diálogo sobre a defesa do Cerrado e as mudanças percebidas nos territórios ao longo dos anos.
Realizadas no mês em que se celebra o Dia Nacional do Cerrado, em 11 de setembro, as atividades tiveram como foco o reconhecimento das águas existentes, a identificação de cursos d’água que secaram e o registro das preocupações das comunidades com a redução da disponibilidade hídrica.

As ações integram o trabalho de pesquisa sobre a cartografia das águas do Oeste da Bahia, que busca reunir informações sobre a situação dos recursos hídricos a partir do mapeamento territorial e dos conhecimentos de quem vive nesses lugares.
Mapeamento participativo reúne memórias e informações sobre as águas
Em Serra Dourada, as atividades envolveram moradores de diversas comunidades, entre elas Poço do Juá, Lagoa do Lora, Traíras, Porteira de Santa Cruz, Luiz Martins, Teles, Boqueirão e Pé da Ladeira, além de outras localidades representadas nas oficinas e reuniões.
A metodologia partiu da apresentação de mapas e da construção coletiva de informações sobre nascentes, riachos, lagoas, brejos, minadouros e outros pontos de água. Durante os encontros, os moradores compartilharam lembranças sobre a disponibilidade hídrica no passado, os usos das águas pelas famílias e as mudanças observadas nos últimos anos.
Na comunidade Poço do Juá, os participantes relataram que alguns cursos d’água começaram a apresentar reduções significativas no volume há aproximadamente dez anos, chegando ao secamento em determinados trechos nos últimos cinco anos. Entre os exemplos mencionados está um riacho que nascia na localidade de Riachão e passava por Morrinhos I e II e Queimadas. Segundo os moradores, ainda é possível encontrar água em um trecho do Rio Riachão próximo à BA-172, na região de Morrinhos II, mas o curso só volta a correr durante o período chuvoso.

Na oficina da comunidade Lagoa do Lora, os relatos destacaram a redução do volume de água da lagoa e do Barreiro Grande, associados ao barramento do Riacho Serra Dourada. Os moradores recordaram que esses ambientes eram utilizados para atividades como dessedentação animal, lavagem de roupas e lazer, mas perceberam que o processo de secamento vem se agravando ao longo dos últimos anos.
Já na comunidade Traíras, os participantes chamaram a atenção para o secamento do Riacho do Caracol e para a existência de barramentos ao longo de seu curso. Segundo os relatos, três barramentos teriam sido construídos na região da Lagoa dos Porcos e da Lagoa do Caracol nos últimos três anos. Os moradores manifestaram preocupação com os efeitos dessas intervenções sobre a circulação da água, o abastecimento das lagoas e a chegada das águas às comunidades localizadas nas partes mais baixas dos riachos.
Os participantes também apontaram a diminuição das chuvas e o desmatamento como fatores que contribuem para o secamento dos cursos d’água. Na avaliação dos moradores, os barramentos agravam o problema ao reter a água que, anteriormente, seguia pelos riachos e alcançava outras localidades.

Ainda em Serra Dourada, na comunidade de Luiz Martins, a equipe visitou o local conhecido como Lambedor, onde se encontra a nascente do Riacho Água Bonita. Foram identificados dois olhos d’água e um pântano. Moradores também relataram a existência de outro minadouro ao pé da serra e de mais um pântano nas proximidades.
Embora a nascente ainda mantenha água durante todo o ano, os relatos apontam uma redução significativa de sua vazão. A preocupação é especialmente maior nos períodos de estiagem, quando a disponibilidade de água se torna mais limitada. Em algumas localidades, essas fontes são utilizadas para o consumo humano e para outras necessidades das famílias e propriedades rurais.
Na comunidade de Porteira de Santa Cruz, as visitas incluíram os riachos do Marimbu, São José e das Porteiras. De acordo com os moradores, há cerca de 40 anos esses cursos d’água apresentavam volumes expressivos, enquanto atualmente a água corre principalmente durante as chuvas. Mesmo com a redução, pequenos minadouros ainda são utilizados como fontes alternativas para o abastecimento de animais.

Em Pé da Ladeira, foram identificados o Riacho d’Água, alimentado pela nascente Água Bonita e descrito pelos moradores como perene, e o Riacho Seco, que corre apenas durante o período chuvoso.
Os relatos e as observações de campo evidenciaram mudanças importantes na paisagem hídrica dessas comunidades, onde nascentes, lagoas, brejos e pequenos cursos d’água, antes presentes em maior quantidade, hoje apresentam vazões reduzidas ou desapareceram.
Durante as oficinas e visitas, também foram apontados a perfuração de poços artesianos e a construção de barramentos como fatores que, na percepção dos participantes, contribuem para as mudanças observadas nos cursos d’água.
Em Santana, comunidades compartilham preocupações com o futuro das águas
No município de Santana, as atividades também reuniram moradores para dialogar sobre a situação das águas e registrar informações para o mapeamento participativo.
Na comunidade de São Francisco, a equipe visitou a residência de Francisco Neres da Silva, onde conversou com moradores sobre as nascentes, os riachos e as formas de utilização da água. Segundo as informações compartilhadas, a região possui duas nascentes principais, revitalizadas pela Associação de Moradores em parceria com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

Uma das nascentes apresenta melhores condições de conservação e maior volume de água, enquanto a outra enfrenta uma situação mais crítica, com redução significativa da vazão. Uma dessas fontes abastece oito propriedades por meio de um rego e de um riacho. Entre os cursos d’água mencionados está o Riacho da Gameleira.
Considerando as informações fornecidas sobre as comunidades de São Francisco, Gameleira e Colônia, estima-se que pelo menos 165 famílias dependem dessas águas. Além de sua importância para o abastecimento, o riacho constitui uma referência territorial, delimitando comunidades ao longo de seu percurso.
As visitas também incluíram áreas de nascentes e estruturas de abastecimento na comunidade de Curral de Varas. Na propriedade de Evaci, a equipe conheceu uma nascente com forte fluxo de água. Também foram identificados olhos d’água e nascentes nas propriedades vizinhas.

De acordo com os relatos, essas fontes contribuem para uma pequena barragem construída há pelo menos 40 anos. Localizada a aproximadamente um quilômetro das nascentes, a estrutura conta com bombas utilizadas no abastecimento de pelo menos 15 comunidades, atendendo a mais de 500 famílias.
A equipe também registrou o caso de uma nascente na área de Geraldo que, segundo os moradores, já foi utilizada para abastecer a comunidade com água para consumo humano, mas atualmente não apresenta força suficiente para manter o escoamento.
As equipes também reuniram informações sobre nascentes e cursos d’água nas comunidades de Cocos e Cachoeira. Na comunidade de Cocos, onde vivem cerca de 20 famílias próximas a uma das nascentes do Riacho de Cocos, foi identificada uma área ainda preservada, com vegetação de maior porte e água corrente até determinado trecho. O levantamento identificou as principais nascentes e cabeceiras que formam os riachos da Tapera, da Posse, de Cocos e do Olho d’Água. Segundo os relatos dos moradores, a maioria desses cursos d’água já não apresenta fluxo contínuo, restando água em algumas nascentes e pequenos trechos.
Na região de Cachoeira, as visitas identificaram nascentes que ainda contribuem para o abastecimento das famílias e para a formação do Riacho de Santana, também conhecido em trechos mais baixos como Rio das Cauãs. Entre elas estão as nascentes dos Caboclos ou Sossego I, do Bacupari e do Sossego II, que permanecem preservadas pelos moradores. A nascente do Bacupari e a do Riachão, conhecida como Manguinha, contribuem para o abastecimento de famílias da região, embora os moradores já percebam a diminuição do volume de água da Manguinha, sobretudo durante a estiagem. Em contraste, o Boqueirão da Mãe Paula está seco há mais de 12 anos, segundo os relatos, enquanto o Boqueirão da Cachoeirinha teria deixado de correr há cerca de 40 anos. Ao todo, foram identificados aproximadamente 15 pontos de olhos d’água que ainda brotam água, além de três cabeceiras com presença de água, Ananás, Manguinha e Cocos.

Foram identificadas experiências comunitárias de cercamento e plantio para proteger olhos d’água demonstrando a importância da recuperação ambiental e do cuidado com as nascentes. Mesmo diante da redução das águas, as comunidades seguem buscando formas de preservar esses ambientes e manter seus modos de vida, reafirmando a necessidade de proteger as nascentes e garantir o acesso à água nos territórios
As reuniões realizadas em residências e espaços comunitários, incluindo um encontro na Escola Municipal do distrito de Cachoeira, fortaleceram o diálogo sobre a situação do Cerrado, as transformações nos territórios e a importância de reconhecer os conhecimentos e as memórias das comunidades na defesa das águas.
Durante as atividades, os participantes também manifestaram preocupação com o avanço da grilagem sobre os territórios de Fundo e Fecho de Pasto. Essas comunidades tradicionais mantêm áreas de vegetação nativa do Cerrado preservadas e desenvolvem modos de vida vinculados ao uso coletivo da terra e à conservação dos recursos naturais. Os moradores temem que a apropriação irregular desses territórios e o consequente desmatamento comprometam ainda mais a disponibilidade de água no município.

A preservação das nascentes e da vegetação nativa é uma preocupação central para essas populações, que dependem dos recursos hídricos locais para o consumo, a produção de alimentos e a criação de animais. Os relatos reforçam a importância de proteger os territórios tradicionais e assegurar a conservação das fontes de água que sustentam a vida das comunidades.
Cartografia das águas revela dimensão da crise hídrica no Oeste da Bahia
O trabalho desenvolvido em Serra Dourada e Santana dá continuidade à pesquisa sobre a cartografia das águas do Oeste da Bahia.
Nas sub-bacias hidrográficas dos rios Corrente e Carinhanha, levantamentos realizados em 2023 e 2024 identificaram 3.050 trechos de cursos d’água já secos, entre córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios, totalizando 7.120 quilômetros de extensão. Outros 580 trechos foram classificados como em estado crítico, somando 3.837 quilômetros.

O levantamento abrangeu trechos do alto e médio Rio Corrente, incluindo os rios Guará, do Meio, Santo Antônio, Correntina, Arrojado e Formoso, além de cursos d’água da margem esquerda do Rio Carinhanha, na Bahia, como o Riacho do Meio e o Itaguari.
A primeira etapa da pesquisa foi sistematizada na publicação A morte das águas no Oeste da Bahia, disponível no site da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
A ampliação da pesquisa para outras regiões busca aprofundar o conhecimento sobre as mudanças na disponibilidade hídrica e contribuir para dar visibilidade à realidade vivenciada pelas comunidades.
Em Serra Dourada e Santana, as informações reunidas ainda são parciais. Por isso, as equipes destacam a necessidade de novas visitas para ampliar os dados registrados nos mapas.
Os encontros também evidenciaram preocupações com a ausência, segundo os participantes, de ações suficientes de fiscalização, recuperação de nascentes e áreas degradadas e enfrentamento à crise hídrica. Os registros apontam a importância de aprofundar o debate sobre a proteção dos recursos hídricos e a responsabilidade na gestão das águas.
O Cerrado desempenha papel fundamental na manutenção dos recursos hídricos, e a conservação de sua vegetação nativa é essencial para a proteção dos ecossistemas e das águas. O Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), elaborado pelo MapBiomas e divulgado em 27 de maio de 2026, apresenta dados sobre a perda de vegetação nativa nos biomas brasileiros. Segundo o levantamento, a Bahia ocupou a terceira posição entre os estados com maior área desmatada em 2025, com 110.616 hectares, apesar de uma redução de 16,9% em relação a 2024. Municípios do Oeste baiano também aparecem entre os que registraram perdas expressivas de vegetação nativa. Os dados reforçam a importância de políticas de proteção ambiental, fiscalização e recuperação de áreas degradadas, especialmente em territórios onde as comunidades já enfrentam a redução da disponibilidade de água.
Apesar dos desafios impostos pela crise hídrica, as visitas também evidenciaram a riqueza e a diversidade da agricultura familiar na região, com destaque para a produção de hortaliças e a fabricação artesanal de cachaça, rapadura e açúcar. Essas atividades expressam saberes tradicionais transmitidos entre gerações e demonstram a capacidade de resistência das comunidades, que seguem preservando seus modos de produzir, cultivar a terra e garantir o sustento das famílias, mesmo diante da redução da disponibilidade de água. A defesa das águas e dos territórios é, portanto, fundamental para assegurar a continuidade da agricultura familiar, da produção de alimentos e dos conhecimentos tradicionais que sustentam a vida no Cerrado.

8ª Semana do Cerrado prepara caminho para a Romaria em novembro
A Semana e Romaria do Cerrado nasceu da articulação entre comunidades, pastorais, entidades, organizações e movimentos sociais da região, diante do avanço da degradação do bioma e de seus impactos sobre as águas e os modos de vida dos povos e comunidades tradicionais.
Ao longo de suas edições, a iniciativa promove visitas de campo, diagnósticos participativos, intercâmbios de experiências, reuniões, celebrações, seminários, exposições audiovisuais, atividades em escolas e manifestações culturais. A proposta é fortalecer a mobilização coletiva em defesa do Cerrado, de seus povos e das águas que sustentam a vida.
Em 2026, a programação tem como tema “Parteiras da Vida, Defensoras do Chão: no cuidado das Águas, o Cerrado em Mutirão” e como lema “A criação inteira geme e sofre as dores de parto” (Romanos 8,22).
O tema destaca o papel das mulheres no cuidado e na defesa da vida, assim como o compromisso das famílias e comunidades que vivem no Cerrado e reconhecem sua importância para a geração e a manutenção das águas. O lema expressa tanto as dores provocadas pela destruição ambiental quanto a esperança de transformação e de uma vida nova.
A programação de setembro integra o processo de preparação para a 8ª Romaria do Cerrado, que será realizada no dia 14 de novembro de 2026, na comunidade de Porteira de Santa Cruz, município de Serra Dourada, na Bahia. A concentração está prevista para às 7h30.

A mobilização convida comunidades, organizações, pastorais, movimentos sociais e todas as pessoas comprometidas com a defesa da vida a se somarem a esse encontro em defesa do Cerrado, de seus territórios e de suas águas.
Cerrado em pé, águas vivas e povos com direitos!
Amanda Alves | Comunicadora Socioambiental – CPT Centro-Oeste da Bahia
Registros fotográficos: Acervo da CPT Centro-Oeste da Bahia.



