CPT BAHIA

NOTA TÉCNICA

El Niño 2026–2027: Alerta Climático para a emergência da escassez de chuva  na Bahia

Lucas Teles de Oliveira1
Deorgia Tayane Mendes de Souza1
Ericka Medeiros da Silva 1

Diego Pereira Costa1;2

1- Universidade Estadual de Feira de Santana – Programa de Pós Graduação em Modelagem e Ciência da Terra/ LABESPECTRO: Laboratório de Espectrorradiometria e Sensoriamento Remoto 2- Geodatin

1. O que está acontecendo com o clima?

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, nas proximidades da linha do Equador, e ocorre em ciclos de frequência e intensidade variáveis. Em junho de 2026, a NOAA (agência de oceano e atmosfera dos EUA) confirmou oficialmente a formação de um novo episódio. Os dados de monitoramento da NOAA indicaram, já em julho, anomalia de 2,1°C na temperatura da superfície do mar, patamar associado a eventos de grande intensidade. Em agosto, a anomalia alcançou valores iguais ou superiores a 2,6°C, e as projeções indicam que o fenômeno deve se manter com intensidade muito forte de setembro de 2026 a fevereiro de 2027.

Para o Hemisfério Sul, o impacto é especialmente forte no Norte e Nordeste brasileiros, no que tange à seca e à baixa umidade relativa do ar, proporcionando períodos longos de estiagem e presença de fogo. Há indicativos de condições mais secas em áreas do Sudeste e do Centro-Oeste, abrangendo os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia,  INPE (2026). 

De acordo com o estudo de Oliveira (2026) para a Caatinga El Niño significa, historicamente, menos chuva, mais calor, veranicos prolongados e maior risco de seca, identificados pela aplicação do SPI (índice de Precipitação Padronizada). O Cemaden já registrava, em maio/2026, 59 municípios baianos em seca moderada e 4 em seca severa, o pior quadro do ano, coincidindo com o início oficial do fenômeno.

Gráfico 1 – Pico do Índice ONI em eventos de El Niño (1993–2027) e respectivo impacto no SPI-12 da Caatinga/Bahia. Fontes: NOAA/CPC; Oliveira (2026).

Oliveira (2026) realizou um estudo observando 30 anos de dados de precipitação (1993–2023) e o Índice de Precipitação Padronizada (SPI-12) identificou 10 grandes secas na Caatinga. Os quatro eventos de maior magnitude coincidiram com anos de El Niño ou com seu período imediatamente posterior. Dados históricos associados a esses eventos, conforme Marengo et al. (2026), incluem:

●  1993–94 (El Niño): seca severa, SPI-12 pico de -2,06 — uma das piores do século XX.

●  1997–98 (El Niño forte, ONI +2,4°C): queda de ~57% na produção agrícola regional.

●  2012–13 (seca extrema, ONI +0,8°C): 1.262 municípios em emergência; perdas de US$ 6 bilhões.

●  2015–16 (El Niño muito forte, ONI +2,3°C): queda de até 62% na produção de feijão.

O efeito do El Niño sobre a seca na Caatinga é defasado em cerca de 7 a 10 meses: os impactos mais severos sobre a lavoura tendem a aparecer do final de 2026 até meados de 2027. Além disso, 56% da área da Caatinga apresenta tendência estatística de intensificação da seca desde 1993 (teste de Mann-Kendall), indicando vulnerabilidade crescente (Oliveira, 2026).

2. O impacto do El Nino e da Seca na Bahia

Gráfico 2 – Evolução mensal dos municípios baianos em condição de seca (dez/2025–mai/2026) e fase do ENOS correspondente. Fonte: Boletins RiSAF – Cemaden/MCTI.

Em apenas cinco meses, o número de municípios baianos em seca moderada saltou de 6 (jan/2026) para 59 (mai/2026), com o agravamento coincidindo diretamente com o início do El Niño. O centro-norte do estado (Campo Formoso, Sento Sé, Monte Santo, Uauá, Senhor do Bonfim) concentra historicamente os municípios de maior vulnerabilidade acumulada dentro do bioma.

De acordo com o RiSAF, há um comprometimento no sistema de plantio na agricultura familiar, tendo em vista o seu manejo, com produção de sequeiro e minifúndios. Esse público é considerado um dos mais vulneráveis a esse fenômeno climático. Desse modo, torna-se relevante apresentar o agravamento do El Niño no aspecto ambiental e, na sequência, o impacto na agricultura.

Quadro 1 – Agravamento da agricultura e ambiente do El Niño Intenso

Observa-se no quadro 1 que, os aspectos ambientais e da agricultura familiar possuem convergência. O desequilíbrio ambiental afeta diretamente as populações mais vulneráveis, no aspecto social, econômico e ambiental. Isso porque a prática da agricultura ocorre a partir de um calendário de plantio e que tenha presença de água, tendo em vista que o sistema de plantio é de sequeiro.

A presença de  incêndios, como registrados na Caatinga para os meses de janeiro a julho, segundo o Mapbiomas [Monitor do Fogo] (2026), revela um aumento de 3.165 ha (2026), em relação ao mesmo período do ano anterior, com total de 27.636 ha de área queimada. Destaca-se que 20.698 ha em áreas de floresta comprometem a água, a floresta e a renda.

Com base no Boletim RiSAF nº 70  (julho/2026), a  redução e irregularidade das precipitações afetaram diferentes culturas de sequeiro na Bahia, provocando restrição hídrica, menor vigor vegetativo e redução do potencial produtivo, com perdas de produtividade mais evidentes nas lavouras de feijão-caupi, feijão-cores e milho de 3ª safra.

Gráfico 3 – Distribuição do risco RiSAF por período (Maio/Jun/Ago 2026) e Top-20 municípios em situação de risco Alto e Muito Alto para agosto/2026 (projeção). Fonte: RiSAF/CONAB, Boletim nº 70.

Para agosto de 2026, a projeção do RiSAF indica 132 municípios baianos em risco alto ou muito alto de seca na agricultura familiar (Gráfico 3). Entre os oito classificados como risco muito alto, a maior parte (Abaré, Chorrochó, Fátima, Lamarão, Macururé e Mairi) situa-se no semiárido baiano, em áreas de Caatinga com histórico de vulnerabilidade ao déficit hídrico.

Fonte: Boletim RiSAF n.70, Conab

Gráfico 4 – Culturas impactadas na Bahia em julho/2026: percentual de municípios com restrição hídrica e queda estimada de produtividade. Fonte: Boletim RiSAF nº 70, CONAB.

Perspectiva 2027: O pico do El Niño atual é projetado entre novembro/2026 e janeiro/2027 (ONI ≥ +2,6°C). O efeito sobre a lavoura baiana tende a se intensificar na safra 2026/2027, com risco elevado de déficit hídrico severo. As culturas de feijão-caupi, feijão-cores e milho da 3ª safra já registram restrição hídrica em 55–70% dos municípios monitorados (Boletim RiSAF nº 70). Com interesse em analisar o impacto do El Niño e das chuvas no estado da Bahia por meio do índice SPI 12, foi elaborada uma projeção de acordo com a metodologia de Oliveira (2026).

Gráfico 5 – Mosaico projeção SPI para 2027 e relação com El Niño

Os dados revelam que há possibilidade de atraso no período de chuvas ou de escassez de chuva em virtude da presença do El Niño. As projeções do Niño 3.4 indicam a persistência de condições de El Niño durante o segundo semestre de 2026 e início de 2027, com máxima intensidade prevista entre outubro e dezembro de 2026. Esse comportamento é consistente com a tendência de redução do SPI-12 projetada pelo modelo XGBoost para o período de julho de 2026 a abril de 2027, reforçando a possibilidade de deterioração progressiva das condições hidroclimáticas.

Diante do exposto, apresentamos algumas sugestões para o enfrentamento do impacto do El Niño na Bahia.

●  Sistema de monitoramento de fenômenos climáticos  locais e regionais de alta intensidade e que têm impacto direto nos territórios com maior vulnerabilidade social.

●  Planejamento de plantio: de acordo com boletins e produtos técnicos CPTEC/INPE e do INMET e  sistemas de monitoramento locais e regionais.

●  Gestão da Água: priorize a manutenção e limpeza de cisternas, pequenos açudes e barragens subterrâneas antes do período seco; acione os programas de Convivência com o Semiárido (ASA/Cisternas).

●  Forragem e reserva: estoque silagem, palma forrageira e outros alimentos para o rebanho com antecedência, antes de eventual intensificação da seca no segundo semestre.

●  Prevenção de incêndios: abra e mantenha aceiros; evite queimadas em períodos de baixa umidade e vento forte. ●  Acesse o seguro agrícola: consulte seu escritório da Emater/Bahia sobre o Proagro e o Seguro da Agricultura Familiar (SEAF) para proteger a produção.

3. Considerações Prévias.

A previsão do Niño 3.4 pelo CCSR/IRI indica a persistência de condições de El Niño durante o segundo semestre de 2026 e início de 2027, com maior intensidade entre outubro e dezembro de 2026. Na análise do SPI-12 foi possível verificar uma defasagem de chuva próximo a próxima a 10 meses. Paralelamente, o modelo XGBoost projeta redução gradual do SPI-12 entre julho de 2026 e abril de 2027. A convergência desses resultados sugere um cenário de deterioração gradual das condições hidroclimáticas, com possível transição para déficit hídrico em 2027. Embora os valores projetados não indiquem, isoladamente, uma condição de seca severa, a persistência do sinal de El Niño associada à tendência de redução do SPI-12 constitui um importante sinal de alerta para áreas da Caatinga que apresentam elevada vulnerabilidade histórica à seca e processos de degradação ambiental.

Referências

CPC/NOAA. ENSO Diagnostic Discussion. Jun.–ago. 2026. Disponível em: www.cpc.ncep.noaa.gov

CEMADEN/MCTI. Boletins RiSAF – Risco de Seca na Agricultura Familiar (dez/2025–mai/2026). www.gov.br/cemaden

CONAB/MAPA. Boletim RiSAF – Risco de Seca na Agricultura Familiar nº 70, jul/2026. www.conab.gov.br/risaf

INPE; INMET; FUNCEME; CENSIPAM. Nota Técnica Conjunta – El Niño 2026, abr. 2026. www.gov.br/inpe

INMET. El Niño em 2026. portal.inmet.gov.br

OLIVEIRA, L. T. Análise de tendência e predição do SPI no bioma Caatinga. TCC/UEFS, 2026.

MARENGO, J. A. et al. Drought in Northeast Brazil — past, present and future. Theor. Appl. Climatol., v.129, p.1189-1200, 2017.

MAPBIOMAS ÁGUA. Série Anual de Mapas de Superfície de Água do Brasil. plataforma.agua.mapbiomas.org

MAPBIOMAS. Monitor do Fogo: dados mensais de áreas queimadas no Brasil. São Paulo: Projeto MapBiomas, 2026. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/dados-monitor-mensal-do-fogo/. Acesso em: 17 ago. 2026.

KAYANO, Mary T.; ANDREOLI, Rita V. Relationships between rainfall anomalies over northeastern Brazil and the El Niño–Southern Oscillation. Journal of Geophysical Research: Atmospheres, v. 111, D13101, 2006. DOI: 10.1029/2005JD006142 .

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